GUIÃO | EPISÓDIO 1


Personagens

WELLINGTON - NELSON LUÍS CRAWFORD - PEDRO GAMA MASSENA - RÚBEN DIAS PAMPLONA - JOEL
HOMEM - JOÃO TARRAFA
FREI JOSÉ DE SÃO SILVESTRE - DIOGO BINNEMA
ANA - MARTA PIRES
TERESA - JOANA SARABANDO
CARMELITA 1, SOLDADO FRANCÊS 1 e SOLDADO FERIDO 1 - PEDRO SEMEDO
(OTC)
CARMELITA 2 e SOLDADO FRANCÊS 2 - JORGE SOUSA (OTC) SOLDADO FRANCÊS 3 - DIOGO MANAIA
O MENSAGEIRO - GUILHERME CARAPETO (AM)
MULHER 1 - ANA SOARES (AM)
MULHER 2 - NOÉMIA LOPES MACHADO (OTC)
MULHER 3 - CARMINDA FERREIRA (AM)
MULHER 4 - MARIANA NEVES (OTC)
MULHER 5 - MATILDE CLARO
MULHER 6 - ANA MANNARINO (OTC)
MULHER 7 - SUZY GALVÃO (AM)
MULHER 8 - ELISABETE SOUSA (AM)
MULHER 9 - FABIANA SEMEDO
MULHER 10 - ADELAIDE CLARO
CRIANÇA - MAFALDA 
SOLDADO FERIDO 2 - CARLOS SIMÕES (GREHC)
SOLDADO FERIDO 3 - ANTÓNIO RAMOS (GREHC)
SOLDADO FERIDO 4 - LUÍS COSTA (GREHC)
MAESTRINA e GUITARRISTA - ANA ALBINO
INSTRUMENTISTAS - “AVEIRO BRASS QUINTET”: MÁRCIO JOEL | RODRIGO FIGUEIREDO | CARLOS CASTRO | GONÇALO CORREIA | HENRIQUE ORTUÑO
BATERISTA - PEDRO LATÃES
CORO - GUSTAVO GIL GODINHO | ANDREIA MELO | FRANCISCO PRONTO | FILIPA COSTA, e todas as mulheres.

CENA 0

A cortina abre. O exército francês e o exército anglo-luso estão frente a frente, em freeze, com o HOMEM no centro, virado para o público. Ouve-se música e, em seguida, um coro. À medida que a intensidade musical aumenta, os soldados vão iniciando a batalha em câmera lenta. Lentamente, os soldados vão saindo de cena.

Cena I

De um lado do palco, sobra o general CRAWFORD, inglês, e do outro, o general PAMPLONA, francês. Cada um tem um mapa e relatórios nas bolsas.

Entram Wellington e Massena.

WELLINGTON: General Crawford.

CRAWFORD: Lord Wellington.

WELLINGTON: Que há de novidades?

MASSENA: General Pamplona.

PAMPLONA: Marechal Massena. MASSENA: Que há de novidades?

PAMPLONA: Não se vê vivalma nesta terra, meu marechal.

MASSENA: Isso eu consigo ver, obrigado. Mas a cidade é desabitada? Não compreendo.

PAMPLONA: De todo, senhor. Na verdade, diz-se que é uma cidade que tem entre 8000 e 10.000 almas. Parece-me, no entanto, que fora abandonada pelos seus habitantes.

MASSENA:(Surpreendido e transtornado.) Não percebo! Esperava que o povo me recebesse bem! Contava, por consequência, encontrar facilmente os necessários recursos para o exército prosseguir sem embaraço na sua marcha até Lisboa.

PAMPLONA: Isto parece-me ser outra vez obra daquele desgraçado do Wellington.

Massena suspira, agastado.

CRAWFORD: A política da terra queimada já começa a mostrar resultados.

WELLINGTON: Bons resultados?

CRA WFORD: Sem dúvida, meu comandante. As últimas notícias dos nossos batedores mostram que os franceses estão a passar sérias dificuldades, particularmente pela falta de víveres.

WELLINGTON: É evidente. Coloque-se na perspetiva dos franceses: num país estrangeiro, sem aliados, sem comida à disposição, sem víveres durante meses, cada vez com pior ânimo... nessas condições, como é que se sobrevive? Ou pior ainda, como é que se avança para o campo de batalha com intenções de conquista?

CRAWFORD: De maneira nenhuma.

WELLINGTON: Não é preciso ser um génio táctico para se compreender isso. Enquanto as populações portuguesas continuarem a desaparecer das localidades e a queimar tudo o que possa ser de uso para os franceses, estes não vão conseguir revitalizar-se o suficiente para estarem no seu pleno vigor durante o plano de invasão.

MASSENA: Era capaz de dar de borla metade do nosso exército para conseguir encontrar um lugar que não esteja em cinzas.

PAMPLONA: E se nós os dois estamos neste estado, imagine-se como estarão as tropas.

MASSENA: Os ânimos lá fora devem estar pelas ruas da amargura.

PAMPLONA: À medida que o tempo passa, menos força têm eles para pegar numa espada, quanto mais avançar para o campo de batalha com a intenção de conquistar um país. Pelo menos conseguiremos sempre vencer o exército dos ingleses e dos portugueses pela superioridade numérica, os números ninguém nos pode tirar. No entanto, os números de nada servirão se não pusermos pão na boca dos nossos homens em breve. (Pausa. MASSENA não responde.) Temos de escolher cuidadosamente o lugar de ataque ao exército anglo-luso. Se o local do confronto for bem escolhido e a estratégia delineada com pormenor, não haverá nada que os valha.

MASSENA: Valha-me Deus ou o Diabo se tenho de pensar nisto durante mais um quarto de hora. Estou cansado e tenho uma senhora à minha espera. (P AMPLONA mostra-se incomodado.) Pensemos então nessa estratégia maravilhosa, a ver se voltamos a casa mais cedo do que tarde. (Examinam um mapa.)

CRA WFORD: Estamos em crer que os franceses vão tentar atravessar a serra do Buçaco com o objetivo de chegar a Coimbra.

WELLINGTON: (Examinando um mapa.) Não compreendo.

CRAWFORD: O quê, meu comandante? WELLINGTON: Não acha estranho?

CRAWFORD: Sem dúvida, mas tudo indica que será essa a sua próxima movimentação.

WELLINGTON: Não me parece possível que um marechal de tão grande categoria cometa semelhante engano. Se eles estão agora em Viseu, a melhor estratégia seria contornar esta área para evitar o confronto no Buçaco.

CRAWFORD: Talvez Massena não se tenha apercebido do quão facilmente nós conseguiríamos interditar-lhe o caminho.

WELLINGTON: Um erro crasso, se assim for. É claro que uma acção rápida e fatal lhes seria o mais favorável, dada a condição deles... Com certeza já estarão com falta de transportes, ou de mantimentos, ou de animais de carga, e isso explicaria o atraso deles... Mas arriscar batalhar-nos no Buçaco, só um lunático se lembraria disso. Acha que ele foi mal informado pelos seus generais, Crawford?

CRAWFORD: Não lhe sei dizer, meu comandante, mas não creio. Os generais que acompanham Massena têm grande perícia e um bom conhecimento de campo. Muitos deles participaram ativamente nas primeiras duas invasões.

WELLINGTON: Tudo isto me parece fácil, entende? Fácil demais. Não temos tido senão infortúnios nesta terceira invasão, e a estratégia de Massena tem mais cheiro de armadilha do que de engano. Mostre-me os relatórios, vamos ver se desvendamos este mistério.

MASSENA: Atravessaremos a serra do Buçaco.

PAMPLONA: Enlouqueceu, marechal? MASSENA: Tento na língua, Pamplona. Sei muito bem o que estou a fazer.

PAMPLONA: Perdoe-me, mas ainda ontem conferenciámos sobre isto, é uma loucura entrar pela serra adentro. O terreno é absolutamente desfavorável à nossa ação caso sejamos barrados pelo exército de Wellington, e além disso...

MASSENA: Wellington não vai arriscar bater-se connosco, Pamplona. Ele não arriscará perder a sua reputação, isso são ideias maluquinhas suas, do general Junot e dos outros todos; mas se o fizer - se o fizer -, nós temos um exército mais numeroso, aguerrido e valente. Terminaremos a conquista de Portugal o quanto antes, e em poucos dias afogarei o leopardo.

PAMPLONA: Leopardo?

MASSENA: O ilustríssimo Lord Wellington. Percebe o que lhe estou a dizer, Pamplona? Acho que devia começar a pensar em ouvir mais e falar menos. Não se esqueça de que eu sou seu superior, sou mais velho e mais experiente, e se fui eu o escolhido por Napoleão para a demanda da conquista de Portugal, é porque os generais que aqui estão comigo falharam miseravelmente nas últimas duas invasões.

PAMPLONA: Refere-se a Junot.

MASSENA: Não foi só Junot que ficou a ver navios! Todos! Ney, Reyner, Soult e posso incluir também o meu amigo Pamplona. Eu sei que todos me têm ódio por não terem sido os destacados por Napoleão para comandarem esta Invasão. Junot sendo o pior deles todos, claro, pelo seu fracasso ao comandar a primeira. General, pela última vez lhe digo: deixe-me em paz e confie nos seus superiores. Não me chamam “o filho querido da vitória” por nada. Agora, se não se importa, feche a porta à sua saída e mande entrar mademoiselle Henriette Lebreton.

(PAMPLONA vai para sair.)

PAMPLONA: Esperemos que Henriette Lebreton traga um ou dois mapas debaixo das saias, ou então não me parece que vá haver muito mais soldados a quem roubar as esposas. Tenha um muito bom dia, marechal. (Sai.)

CRA WFORD: Quer devíamos preparar-nos para batalhar no Bussaco?

WELLINGTON: Exatamente. Massena tem superioridade numérica, disso não há dúvidas, mas não deixaremos escapar a oportunidade de combater numa posição cimeira em relação à dele. E, aqui entre nós, é uma boa maneira de nos aproveitarmos do número de portugueses que temos no nosso exército sem ter de lhes confiar mundos e fundos. Com os franceses cansados e famintos, Massena não vai conseguir obter vantagem nenhuma obrigando-os a subir a pique até chegar perto de nós.

CRAWFORD: Devo anunciar aos restantes generais que V ossa Excelência deseja conferenciar com eles, para delinear possibilidades de estratégia o mais rápido possível?

WELLINGTON: Exactamente. Podemos então dizer que encontrarmo-nos todos no Convento do Bussaco.
É necessário também enviar ordens às populações das terras vizinhas do Bussaco, para porem em prática a política da Terra Queimada, ou seja: que as gentes queimem as suas casas, o seu gado, os seus excedentes, etc., etc., para que nada caia nas mãos dos invasores quando eles por lá passarem.

CRAWFORD: Muito bem. (CRAWFORD vai para sair.) Meu comandante.

WELLINGTON: Sim, diga. CRAWFORD: Não crê nos portugueses do nosso exército?

Pausa.

WELLINGTON: Creio na sua força de vontade e na lucidez de um povo que sabe escolher os amigos e os inimigos. Nós, os britânicos, primamos pelas competências estratégicas e pura habilidade em campo de combate; os portugueses sobressaem noutros domínios, que também são de se aproveitar. Vá lá tratar do que lhe pedi, o tempo urge.

Crawford sai.

Wellington e Massena estão frente a frente, como que a olhar para um espelho a ajeitar as fardas. Imitam os movimentos um do outro.
WELLINGTON: Seria criminoso não me MASSENA: Seria criminoso não me aproveitar estrategicamente dos erros do aproveitar estrategicamente dos erros do inimigo. Caso Massena se sinta homem o suficiente para batalhar comigo num frente a frente, não vejo como possa ter hipóteses de sobrevivência.

Rumo ao Bussaco.

My dear Massena, good night!
inimigo. Caso Wellington se sinta homem o suficiente para batalhar comigo num frente a frente, não vejo como possa ter hipóteses de sobrevivência.
Rumo ao Bussaco.
Mon cher Wellington, bonne nuit!
Saem. Os músicos e o coro tocam e cantam o "Hino das Invasões Francesas".
Canto esta canção
De guerra e paixão Canto esta canção
De guerra e de paixão De um tempo que passou De um terror que se instalou
Canto esta canção Um rasto de uma invasão Canto esta canção Um rasto de uma invasão Pelas tropas enfrentadas Pelas vidas adiadas

Cena II

Sobra o HOMEM, sentado num acampamento, à noite. Está sozinho, cantando a última estrofe do “Hino”.

HOMEM: Canto esta canção De alma e coração

De uma Pátria desarmada Por Napoleão destroçada

Entra FREI JOSÉ DE S. SILVESTRE.

FREI: Canta para alguém?

HOMEM: Peço desculpa, Reverência, não vi que estava aí.

FREI: Eu é que me devia desculpar, fui eu que o assustei. (Pausa.) Talvez por contactar tanto com Deus, tenho andado com a mania da omnipresença. (Ri-se. Apertam as mãos.) Frei José de S. Silvestre. Trabalho por conta do Convento de Santa Cruz.

HOMEM: Muito prazer.

FREI: Importa-se que me sente?

HOMEM: Faça favor, tenho todo o gosto.

Senta-se. Pausa longa.

FREI: O meu amigo é um excelente conversador. (Riem-se.) HOMEM: Desculpe, sou verdadeiramente mau nisto. FREI: Deixe lá as desculpas, estou a brincar consigo.

HOMEM: Não sei do que falar, neste ambiente.

FREI: O que quer dizer?

HOMEM: Milhares de homens num acampamento, à espera de batalhar contra um exército formidável e numericamente superior ao nosso. Pouca esperança de sucesso. Conversa-se sobre quê?

FREI: Sobre a vida. Ou sobre o amor. Ou sobre nada. Tem razão. (Pausa.) Mas nós não devemos ter pouca esperança no sucesso, meu amigo.

HOMEM: Talvez eu seja um pessimista.

FREI: Pelo seu humor, parece-me que é. Porque não dorme? Amanhã já estaria com as ideias mais claras.

HOMEM: Não consigo dormir.

FREI: Entretenha-se com alguma coisa.

HOMEM: Já não há luz, portanto não há nada que fazer. FREI: Dorme-se.

HOMEM: E quando não se consegue dormir?

FREI: Pensa-se?

HOMEM: Exactamente.

FREI: E sofre-se, não é verdade?

HOMEM: O sofrer vem atrás do pensar.

FREI: Sofre por antecipação?

HOMEM: Claro que sim. Quer dizer, não, de todo. Não sei. Não tenho cabeça para essas perguntas.

FREI: Desculpe.

HOMEM: Queria dizer que não tenho inteligência para elas, não que Vossa Reverência me incomoda. Sou um homem pequeno, é o que eu quero dizer.

FREI: Que mania a dos ratos de quererem ser lobos ou leões em vez de gostarem de ser, muito simplesmente, ratos.

HOMEM: Ninguém gosta de ratos.

FREI: Digo-lhe já que é o meu animal favorito. Há beleza em todos os ratos, como há beleza em todos os homens. O que é preciso é saber procurá-la. Há ratos que cheiram mal e há ratos que cheiram bem, mas não deixam de ser o mesmo animal.

HOMEM: Desculpe, frade, mas se continuar a falar por enigmas, aqui o rato mal-cheiroso não percebe nada.

FREI: Afinal tem sentido de humor! Fico contente. (Riem-se.) HOMEM: Se calhar tem razão, devia dormir.

FREI: Veja lá, se tem tanto em que pensar é melhor aproveitar agora. (Ri-se.) "A noite é boa conselheira". Mas vá por mim, não pense apenas - aprenda a pensar.

Pausa.

HOMEM: Como sabia que eu cantava para uma mulher?

FREI: Não falei em mulher nenhuma, perguntei apenas se cantava para alguém.

HOMEM: Ah, bom. Mas já lhe respondi, nesse caso.

FREI: Adivinhei antes de mo dizer.

HOMEM: Vejo que é um homem atento às pessoas.

FREI: Deveria ser esse o dever principal de um Homem. Como se chama?

HOMEM: Eu?

FREI: Essa mulher.

HOMEM: Ana. É a mãe dos meus dois filhos. Quando me voluntariei para o exército, vi-me obrigado a deixá-los para trás.

FREI: E sabe-se o que é feito deles?

HOMEM: Não lhe consigo dizer. Mas espero que estejam bem. O mais provável é ela ter- (Pausa.) Frade, não ouve gritos, muito ao longe?

FREI: Talvez seja obra de Lord Wellington. A chamada política da Terra Queimada, sabe do que se trata?

HOMEM: Claro que sim, sei mais do que gostaria. A população queima os seus pertences e foge das localidades.

FREI: Para não deixar nada de valor no caminho das tropas francesas. Sem tirar nem pôr. HOMEM: Mas só se ouve gritos, não se vê fogo.

A luz que incide sobre os homens desce.

Cena III

Num abrigo.

MULHER 1: Não se preocupe Ana, cuidarei dos seus meninos. Obrigada por fazer isto por nós! Vá com cuidado!
Ana assente com a cabeça e sai do túnel, vigilante e temerosa. Encontra um cesto, caído, com maçãs espalhadas. Apanha uma e, quando vai para a comer, ouve um barulho. Assusta-se. Esconde-se. Passam dois franceses, à conversa. Ana observa-os, com medo. Ao andar para trás, esbarra contra algo e assusta-se, saltando e deixando cair algumas maçãs do cesto. Atrás dela, está uma criança que, assustada, começa a querer gritar e chorar. Ana, de imediato, faz- lhe sinal para ela não fazer barulho e tenta acalmá-la. Os franceses, ao ouvirem o barulho, olham para ver o que se passa, desconfiados. Vão-se chegando junto do local onde Ana está escondida. Um deles, olhando para o chão, encontra uma maçã. Agarra-a e de imediato tenta comê-la, mas o segundo, ao ver a maçã, arranca-lha da mão, tentando também ele comê-la. Um deles leva a melhor, fica com a maçã. Saem. Depois de alguns segundos, Ana destapa a boca da criança.

ANA: O que fazes aqui sozinha? Onde estão os teus pais?

CRIANÇA: Não sei...

ANA: Anda, eu vou levar-te à gruta, onde estão outros escondidos, não podes ficar aqui sozinha. (A criança faz sinal com a cabeça como que indicando que não quer ir.) Como te chamas?

CRIANÇA: Maria.

ANA: Maria, ouve bem o que te vou dizer. Tu não podes ficar aqui. Estes homens, que agora passaram, andam à procura em todas as casas de algo para comer. Quando descobrirem a tua casa e te virem, podem fazer-te mal. A gruta, é um abrigo, para onde foram todas as pessoas que fugiram dos franceses. Pode ser que os teus pais também lá estejam. Vamos? (A criança acena afirmativamente, ainda que com medo. ANA levanta-se e espreita para ver se não vem ninguém. Dá a mão à criança e quando vai para sair repara que o moinho está a trabalhar.)
O moinho a trabalhar? Ah Ti João Rana, que teimoso! Hei de o convencer a abandonar o moinho. (Olha para a criança. Hesita. Virando-se para ela.) Fica aqui mais um tempo. Eu tenho que ir ajudar um amigo. Mas é perigoso vires comigo. Não saias daqui. Eu já te venho buscar. (ANA sai do esconderijo e vai em direção ao moinho. Segundos depois, ouve-se um grande alvoroço. Mulheres gritam, pedem socorro, correm de um lado para o outro, espavoridas. Fogem de soldados franceses. ANA tropeça, fica no mesmo sítio a queixar-se do tornozelo enquanto as restantes mulheres fogem.) Ajudem-me!

(TERESA volta atrás. Dá-lhe apoio para ela se levantar.)

TERESA: Levante-se.

ANA: Não consigo.

TERESA: (Tentando puxá-la.) Venha!

ANA: Já não lhe disse que não consigo? Não consigo! (Cai. Queixa-se.) Vê? TERESA: Com mil diabos, mulher. Olhe que os franceses ainda nos apanham às duas! ANA: É o meu pé, tropecei.

TERESA: O que é que tem o pé?

ANA: Não sei, está partido, não consigo levantar-me.

TERESA: Se tropeçou, magoou o tornozelo, não foi o pé.

ANA: Quero lá saber onde é que me magoei, quero é sair daqui!

TERESA: Isso digo eu! Dê cá isso.

ANA: (Afastando-lhe as mãos.) Saia!

TERESA: Deixe-me ajudar, mulher de Deus! ANA: Tire a mão do meu pé!

TERESA: Eu estou a ajudá-la!

ANA: Está a magoar-me!

TERESA: Prefere que seja eu a magoá-la ou os soldados franceses? ANA: Largue-me! Ainda me parte o pé!

TERESA: Eu tenho prática a cuidar dos enfermos! Faça silêncio! (Pausa.)

ANA: Então despache-se!

TERESA: Isto vai doer.

ANA: O quê?

(TERESA faz pressão no tornozelo. ANA grita de dor.)

TERESA: Eu disse-lhe. (ANA continua a gritar.) Não grite! (ANA continua.) Vai chamar os soldados diretamente para aqui! (ANA continua. TERESA dá-lhe um estalo.) Cale-se, mulher! (Pausa. As duas olham-se.)

ANA: (Dando-lhe um estalo.) Deixe-me! TERESA: (Dando-lhe outro.) Esteja quieta!

ANA: (Vai para lhe dar outro estalo, interrompe-se.) Estão perto.

TERESA: Escondamo-nos ali.

Agarra em ANA e arrasta-a para um esconderijo. Entram três soldados franceses a correr, procuram por todo o lado, demoram-se. Parece que vão encontrá-las, mas não as encontram. ANA parece que vai gritar ou queixar-se do tornozelo, mas TERESA tapa-lhe a boca. Eles desistem e continuam o seu caminho. Elas esperam um pouco até sair do esconderijo.

ANA: Já não os ouço.

TERESA: Temos de nos pôr a caminho na mesma. (Dá-lhe um pano.) Ponha isto na boca para não gritar, eu trato-lhe do tornozelo.

ANA: Não se vai pôr a mexer-me no pé outra vez!

TERESA: Deixe de ser parva, eu trato-lhe disso num instante para sairmos daqui.

ANA: Nada disso!

TERESA: Se vocemessê ficar aqui e for apanhada, não vai ser só morta, antes disso, pode ter a certeza que se servirão bem de si. (ANA pausa, com medo.) Abra a boca. (Põe-lhe o pano na boca.) É só um jeito, há de ir ao sítio. Pronta? Um, dois, três! (Faz pressão, ANA queixa-se. Pausa.) Melhor?

ANA: Muito.

TERESA: Pronto.

ANA: Não está perfeito, mas acho que me consigo pôr de pé.

TERESA: Se quiser milagres, vá lá acima ao Convento de Santa Cruz, que eles acodem-na. ANA: Acho que já consigo andar. (Pausa.) Maçã?

TERESA: O quê?

ANA: Tenho uma maçã, se quiser. Se estiver com fome.

TERESA aceita-a, olhando cautelosamente para o espaço para perceber se haverá mais soldados franceses nas redondezas.

TERESA: Obrigada. (Sentam-se.)

ANA: Se é curandeira, o que é que está aqui a fazer?

TERESA: Há notícias de que Lord Wellington se instalou no Convento do Buçaco com o nosso exército, é para lá que me dirijo.

ANA: Uma mulher de coragem.

TERESA: Mais ou menos.

ANA: Mais ou menos?

TERESA: Mais para menos do que para mais. Já estava tão agastada das primeiras duas invasões que, quando se soube desta terceira, a minha reação foi querer fugir.

ANA: E fugiu?

TERESA: Andei sozinha uns tempos, mas agora endireitei a cabeça e apercebi-me de que é preciso que eu ajude o exército da melhor maneira que saiba. Não são apenas os homens que combatem pelo nosso país. À nossa maneira, todos fazemos a nossa parte. Até os que não participam na guerra.

ANA: Engraçado.

TERESA: O quê?

ANA: Faz-me lembrar o meu homem. Ele também tinha pensado em fugir, comigo e com os nossos filhos, mas a sua honra levou a melhor e acabou por desistir da ideia. Quando ele se voluntariou para o exército, viu-se obrigado a deixar-nos para trás.

TERESA: Como é que se chama?

ANA: Quem, ele?

TERESA: Não. Vocemessê.

ANA: Ah. Ana. E a menina?

TERESA: Teresa. Prazer. E os filhos?

ANA: Duarte e Henrique.

TERESA: Não é isso. Se vossemecê está aqui e ele está lá, onde estão eles?

ANA: Num abrigo, na Vacariça. Eu também lá estava, com eles. Mas a nossa fuga de casa foi de tal modo conturbada que pouca coisa consegui levar. Além disso, o alimento já começava a escassear e por isso ofereci-me para vir à procura de víveres que nos sustentem durante mais tempo. Assim também aproveitei para ir a casa.

TERESA: Voltou da Vacariça a casa e da casa à Vacariça para ir buscar as suas coisas? ANA: O que restava delas.

TERESA: Sujeita a encontrar alguns soldados franceses pelo caminho.

ANA: Como aconteceu. (TERESA levanta-se.) O que é que queria dizer com aquilo, há pouco? Sobre se eu fosse apanhada.

TERESA: Digamos apenas que ser mulher não é o mesmo que ser homem. Vamos pôr-nos a caminho. Depois separamo-nos quando tivermos de nos separar.

ANA: Certo.

TERESA ajuda-a a levantar-se. Saem.

Cena IV

O HOMEM e o FREI estão nas mesmas posições em que terminaram a sua cena anterior.

FREI: Já acalmou. Tem-se visto muito disto, ultimamente.

HOMEM: Esta política da Terra Queimada...

FREI: Não era disso que se tratava. Como vocemessê disse, não havia fogo. Provavelmente alguns soldados que entravam numa nova terra e perseguiam os habitantes que ficaram.

HOMEM: Sim, mas isto fez-me lembrar da política da Terra Queimada e... pergunto-me se essa será a única solução.

FREI: Solução para quê?

HOMEM: Para derrotar os franceses. Quero dizer, a única não será, com certeza. Queria saber é se é a melhor estratégia.

FREI: Qual é a sua opinião?

HOMEM: Não sei o que pensar.

FREI: Sabe, sabe. Só tem medo daquilo que pensa.

HOMEM: A estratégia é boa e servirá o seu propósito, tenho a certeza disso.

FREI: Então, qual é o problema?

HOMEM: O problema é que, mesmo que ganhemos a guerra, não sei o que sobrará para nós. FREI: O exército?

HOMEM: Não, o povo.

FREI: Certo. É uma questão pertinente.

HOMEM: Talvez não seja minha responsabilidade gastar a cabeça com isto. Sou um soldado, tenho é de seguir as estratégias de quem manda.

FREI: Um homem nunca deixa de fazer parte do seu país, da população do seu país. Seja ele das gentes pequenas, das gentes grandes, dos que trazem cruzes ao pescoço, ou do que quer que seja.

HOMEM: Como assim?

FREI: Um rei é rei de quê, se não for do seu povo? Do seu castelo? (Pausa.) E um general, comanda o quê? Ou para quê? Ele precisa do seu povo assim como o povo precisa dele. Cuida que os comandantes vão sozinhos para a guerra? Isso queria eu ver, Lord Wellington e o Marechal Massena, sozinhos num prado enorme, a investirem um contra o outro a penantes como soldados comuns. Dava uns trezentos contos para ver isso, se os tivesse. (Ri-se.) Não, meu caro amigo, um rei de Portugal deveria ser sempre rei do povo português, um imperador francês deveria pensar e trabalhar para o seu povo, e por aí fora. Não pode haver meias medidas em relação a isso.

HOMEM: Pois sim, mas neste caso nem rei há, temos apenas um príncipe regente que fugiu para o Brasil. E eu não estou no Brasil, estou aqui, num acampamento do Bussaco, à espera que a guerra venha ao meu encontro.

FREI: Assim como eu. É esse o estado do povo português. (Pausa.) Dou-lhe mais um conselho, mas não diga que vai daqui: aprenda a distinguir os maus amigos dos bons inimigos.

HOMEM: Não sei o que quer dizer.

FREI: Pode ser que perceba, um dia. (Pausa.) É crente? HOMEM: Dentro do possível, julgo ser.

FREI: Já leu a Bíblia, então.

(O HOMEM hesita. Abana a cabeça.)

HOMEM: Contaram-ma, só.

FREI: (Rindo-se.) Não é bem a mesma coisa.

HOMEM: Não é?

FREI: A leitura tem este poder maravilhoso de nos abandonar aos nossos pensamentos. Ler a Bíblia pelos olhos dos outros não é, com certeza, ler a Bíblia. Sabe ler?

HOMEM: Sim. (O FREI tira uma Bíblia do bolso, oferece-a.) Agradeço-lhe, Reverência, acredite que sim, e não me leve a mal, mas não tenho tempo para ler agora.

FREI: Não tem tempo?

HOMEM: Leio muito devagar.

FREI: E tem pressa para ir onde?

HOMEM: Não tenho disposição, também. Penso muito.

FREI: Graças a Deus.

HOMEM: Tenho respostas para perguntas que não aparecem, e perguntas para as quais não acho que existam respostas.

FREI: Parece-me é que o meu amigo passa a vida a complicar. Leia. As respostas estão aí, mas não são os outros que lhas vão contar.

HOMEM: (Relutante.) Muito obrigado.

FREI: Caso não tenha tempo de ler até ao fim, digo-lhe isto: o protagonista morre no final. (O HOMEM fica incrédulo, depois ri-se.) Estou a brincar. Pensa-se que morreu, mas depois vê-se que talvez não seja bem assim. Uma história verdadeiramente enigmática.

HOMEM: Que bizarro ouvir um frade a troçar destas coisas.

FREI: A grande vantagem de ser frade é precisamente poder ser o único a gracejar - que, já agora, é muito diferente de troçar. Muitos não sabem aproveitar este recurso, mas eu quero ser feliz, e é agora. Gostava que o meu amigo o fosse também.

HOMEM: Obrigado, mais uma vez. (Pausa.) Posso pedir-lhe uma coisa?

FREI: Diga.

HOMEM: Ouve-se falar muito disto mas não sei em qual versão da história posso acreditar. Estou curioso por saber acerca da passagem de Wellington pelo Convento de Santa Cruz. Poderia contar-me?

Cena V

(Flashback. O FREI está no Convento de Santa Cruz, a escrever no seu diário.)

FREI: “Depois da grande desgraça da praça de Almeida, que a todo o Portugal foi patente, a 31 de agosto de 1810, o exército francês continuou a sua marcha em direitura a Viseu. O exército anglo-luso, não podendo impedir a marcha dos franceses, se dirigiu até à Ponte de Murcella, isto tão rapidamente, que não se soube aqui nada senão à mesma hora que a tropa chegou, que foi no dia 19 de setembro do dicto ano de 1810. A grande eminência desta serra deu causa aos sucessos que agora direi.”

(Entram dois frades.)

CARMELITA 1: Frade, temos más notícias.

FREI: Podeis dizer apenas "temos notícias".

CARMELITA 1: Perdão?

FREI: Nos últimos tempos todas as notícias são más, por isso podeis só dizer "temos notícias", e eu faço logo a associação. (Ri-se. Os frades ficam confusos.) Quais notícias?

CARMELITA 2: Para ser exacto, não são bem notícias. CARMELITA 1: Não são?

CARMELITA 2: É mais um recado.

FREI: Ah.

CARMELITA 1: E um recado não pode ser considerado uma notícia?

FREI: Mas qual?

CARMELITA 2: Um recado é um recado, é uma mensagem. Uma notícia é uma novidade.

CARMELITA 1: O Frade ainda não sabe o recado, quando lhe dissermos vai ser uma novidade!

(Pausa.)

FREI: Podemos recomeçar?

CARMELITA 2: Sim, por favor.

CARMELITA 1: Temos notícias.

FREI: Boas ou más? (Os Carmelitas entreolham-se, agastados. O FREI ri-se.) Desculpai, não resisti. Quais notícias?

CARMELITA 1: Está lá fora um... (Pausa.) Se calhar não são bem notícias. FREI: Pelo amor de Deus.

CARMELITA 2: Está lá fora um ajudante de campo com um recado vindo diretamente de Lord Wellington.

FREI: Valha-nos Deus. Ora venha lá esse recado.

CARMELITA 2: O recado eu não sei.

FREI: (Para o outro.) Qual é o recado?

CARMELITA 1: A notícia? Não sei.

Pausa.

FREI: Então como sabeis que é mau?

CARMELITA 1: Vindo diretamente de Lord Wellington, presumimos que pudesse ser.

CARMELITA 2: Com todo o respeito.

FREI: Ó homens de Deus, ide lá buscar o ajudante de campo, coitado do rapaz, à espera lá fora!

CARMELITA 1: É para já!

CARMELITA 2: Desculpe!

(Eles saem. O FREI escreve no diário algo rápido. Entra O MENSAGEIRO.)

O MENSAGEIRO: Santas noites. Trago notícias

FREI: ...de Lord Wellington, sim. Um recado, para ser mais exacto, não é assim? Diga-mo.

O MENSAGEIRO: “O ilustríssimo Lord Wellington faz informar da sua chegada iminente ao Convento de Santa Cruz. Diz que pretende requisitar o Convento para nele pernoitar nesta noite e nas que se seguem. Para isso, ele espera ter cama feita, água para se lavar, refeições-”

FREI: Meu amigo, eu compreendo a urgência e a necessidade, mas não sabe o quão transtornante seria para...

O MENSAGEIRO: (Interrompendo.) “Lord Wellington chegará dentro de poucas horas e espera que tudo esteja preparado para o acolhimento de 50 oficiais militares, para além do próprio comandante-em-chefe. E mais informo que...”

FREI: Pronto, pronto. Sejamos breves, então. (O MENSAGEIRO sai.) Frades João e Gonçalo! Entram os frades.

CARMELITA 1: Chamou?

FREI: Mandai preparar tudo para a chegada de Lord Wellington e cinquenta dos seus oficiais. Têm nesta folha todas as necessidades para o acolhimento. (Eles não se mexem.) Vamos, vamos!

Eles saem apressados. O FREI escreve no diário. Algumas horas passam. Entra WELLINGTON, seguidos pelos dois frades, que vão olhando com desconfiança para o general.

WELLINGTON: Boa noite.

FREI: Santas noites, Lord Wellington.

WELLINGTON: Está tudo pronto? Tenho os meus homens lá fora.

FREI: Tudo pronto, como é evidente. Tenho só uma coisa a-

WELLINGTON: Gostava de ver o meu quarto, se for possível. Viajámos muito e queremos lavar-nos, descansar o corpo e preparar a cabeça para o que aí vem.

FREI: Os franceses? WELLINGTON: Sem tirar nem pôr.

FREI: Aqui está o seu quarto. Escolhemos o maior que tínhamos, por ser para Vossa Excelência, e-

WELLINGTON: Calma.

FREI: Diga.

WELLINGTON: A porta?

FREI: A porta? (Pausa. Confusão.) Aqui está ela, Vossa Excelência. Acabámos de entrar por ela, por isso lhe digo que funciona maravilhosamente.

WELLINGTON: Um quarto com uma porta não me serve. FREI: Prefere entrar e sair pela janela?

WELLINGTON: Prefiro entrar por uma e sair por outra. Escolha-me um quarto com duas portas, por favor.

(Pausa. O FREI segue relutantemente para outro quarto.)

FREI: Aqui está outra proposta. Tem as duas portas, mas não é tão espaçoso e é escuro.

WELLINGTON: O que me importa é que tenha duas portas, como deve ser. Está óptimo.

FREI: (Levando-os a outro quarto.) Um dos generais poderá ficar neste quarto. É acolhedor, mas não tem duas portas. Os frades deste lugar têm a mania de desgastar as portas entrando e saindo pela mesma. Enfim, mentalidades antiquadas.

WELLINGTON: Que tralhas são estas? FREI: Tralhas?

WELLINGTON: Está cheio de bugigangas no chão, acha que alguém vai querer ficar com este quarto?

FREI: Estão a um canto, e não perturbam ninguém.

WELLINGTON: Se não for incómodo, gostava de ver outro quarto. Pode não ter duas portas, mas que pelo menos não tenha farrapos, cacos e ferros velhos no chão.

FREI: Certo. (Pausa. Suspira.) Bem, vamos lá ver se consigo arranjar qualquer coisa. Provavelmente só do outro lado, mais longe.

WELLINGTON: Veja isso, por favor. Obrigado. (Dirige-se para o seu quarto.)

CARMELITA 1: (Em surdina.) Frade, não estou a gostar nada disto.

FREI: Quê?

CARMELITA 2: Eles não são como nós. Vamos ter problemas, com certeza. FREI: Deixem lá isso agora, tenho mais em que pensar!

WELLINGTON: (Voltando.) Já agora.

FREI: (Páram.) Diga.

WELLINGTON: Onde vão ficar os frades, nestes próximos tempos?

FREI: Ora, onde houver espaço. No chão, se for preciso. Temos algum espaço na igreja, na sacristia, na livraria, na despensa... O que nos falta em portas, temos abundantemente em espaço no chão.

WELLINGTON: Vou dar-lhe um conselho. Se os franceses de facto irromperem por estas matas, não fiquem aqui.

FREI: Não ficamos? E vamos para onde?

WELLINGTON: Para outro lugar que seja mais seguro. Foi-me dito que é nos espaços religiosos que eles provocam mais ruínas e mais mortes.

A luz muda.

FREI: (Voz-off.) “Dia 22. Neste dia continuou-se a encher a serra de tropa. O general em todo o tempo que aqui esteve levantava-se pelas 5 horas da manhã, pelas 7 saía a rever o campo e o exército, e pelas 4 da tarde é que se recolhia, e pelas 5 jantava. Mandou-nos dizer que estivéssemos sossegados, que ele nos avisaria de quando havíamos de sair. Porém, o prelado mandou sair os religiosos mais velhos, e o carro carregado das preciosidades do convento para Coimbra, e deu logo parte d’isto ao nosso padre geral.”

Cena VI

Durante a voz-off da cena anterior, vê-se ANA e TERESA a chegar ao abrigo e a distribuir comida pelas presentes.

MULHER 2: Folgamos em vê-la, Ana!

ANA: Mais para lá do que para cá, mas viva, ainda assim.

MULHER 3: A mim parece-me viva e bem viva!

ANA: Os meus meninos, onde estão?

MULHER 1: Já estão a dormir.

MULHER 4: Eu não os acordava, estavam os dois chatos como nunca os vi.

MULHER 5: Só corriam e faziam asneiras e perguntavam pela mãe. (ANA sorri.)

MULHER 6: Estávamos preocupadas consigo.

MULHER 7: Pensámos que pudesse ter encontrado soldados franceses pelo caminho.

MULHER 3: Dizem que eles andam por aí a cometer as maiores atrocidades.

MULHER 4: Qual quê? Eles agora estão todos metidos lá para Sula.

MULHER 2: Sim, dizem que as tropas francesas se aproximam de lá. O confronto está para muito breve.

MULHER 7: Mas nem todos estão por lá. MULHER 2: Pois claro que não.

MULHER 6: Há sempre alguns que fogem da guerra, os... como é que... MULHER 1: Desertores?

MULHER 6: Isso mesmo.

MULHER 1: É natural que os haja, às tantas eles nem querem estar aqui. MULHER 5: Então porque é que vêm?

MULHER 1: Porque os obrigam, não é?

MULHER 7: Às tantas eles também preferiam estar no canto deles.

MULHER 4: Estão aí a falar dos franceses como se fossem uns santinhos.

ANA: Santinhos não são, com certeza. Quase que nos mataram às duas.

MULHER 3: Encontraram franceses?

ANA: Soldados. Não sei quantos eram, mas parecia que vinham bêbados e com a destruição na cabeça.

MULHER 2: E como é que se livrou deles? ANA: Tive ajuda desta minha nova amiga. Pausa. Todas olham para TERESA. MULHER 6: E como se chama a menina? TERESA: Teresa.

ANA: Se não fosse ela, teria ficado por lá.

TERESA: Infelizmente, sei muito sobre fugir dos homens.

ANA: Estava a dizer que os franceses estavam agora em Sula?

MULHER 7: Nem mais.

MULHER 6: Não viram fumo, à chegada?

TERESA: Não reparámos em nada.

ANA: E o Tio João Rana, alguém sabe o que é feito dele?

MULHER 6: Conhecendo-o como conheço, é bem capaz de se ter ido meter debaixo dos escombros.

ANA sente-se desfalecer. As mulheres preocupam-se.

MULHER 1: Sente-se bem?

MULHER 2: Sente-se um bocadinho.

MULHER 3: Dêem-lhe espaço.

ANA: Estou bem. Deve ser do cansaço.

Pausa.

TERESA: Esse Tio João Rana é um familiar seu?

ANA: Não é, mas é como se fosse. É o Moleiro de Sula, um grande amigo meu e do meu homem.

MULHER 7: Tem um grande coração, mas é um casmurro de todo o tamanho.

MULHER 4: É ou era? MULHER 7: Como assim?

MULHER 6: É como eu estava a dizer: da maneira que ele é, de certeza que foi meter-se no moinho, mesmo com a chegada dos franceses.

ANA: Foi, sim. Ele disse-me que ia.

MULHER 4: Aí está o que é.

MULHER 6: Sabe que ele não é homem de se deixar ficar.

MULHER 5: Mas qual era a necessidade de ir para o moinho?

MULHER 6: Se foi, é porque é um homem de resiliência, acima de tudo. “Um homem não volta as costas ao perigo”, não era o que ele estava sempre a dizer?

MULHER 7: Sim, mas também se fartava de dizer: “Eles não botam cá acima. Os franceses não botam cá ao cimo da serra.” E olhe agora, ao que parece, botaram mesmo...

MULHER 5: Não sabemos.

MULHER 2: Coitado. Para bem dele, esperemos que não botem mesmo.

MULHER 1: Ana, está a sentir-se mal outra vez?

ANA: Não, eu...

Uma outra mulher entra, desesperada. A MULHER 9 vem atrás a tentar acalmá-la.

MULHER 8: A Maria está aqui?

MULHER 1: Aqui, não.

MULHER 3: O que é que se passa?

MULHER 8: A minha menina, não a encontro!

MULHER 6: Como não?

MULHER 8: Pensei que tivesse vindo connosco, mas desde que chegámos que não a encontro em sítio nenhum!

TERESA: Terá saído para brincar lá fora?

MULHER 8: Já espreitei lá para fora!

MULHER 6: Se não está aqui dentro, é porque saiu sem dizer nada.

MULHER 4: Ou nunca chegou a entrar.

MULHER 5: E pode estar longe.

A MULHER 8 senta-se, com as mãos na cara.

MULHER 8: O que é que eu faço agora?

MULHER 9: Tente acalmar-se e pensar onde é que a viu pela última vez!

MULHER 8: Em casa!

MULHER 9: Ai, mulher! Será possível que tenha deixado a Maria para trás com toda a confusão?

MULHER 8: Não sei, ela pode ter voltado atrás para ir buscar a boneca dela, ela não larga a boneca nem por nada... (Começa a chorar. Umas tentam acalmá-la, outras começam a dizer que vão procurar pela gruta e vão saindo. Alguém ajuda a MULHER 8 a sair. Ficam apenas as mulheres 1, 2, 6 e 9.)

ANA: Uma boneca? (Chegando perto da MULHER 9.) Como disse que se chama a menina?

MULHER 9: Maria.

ANA: Eu vi-a, quando fiz o caminho para casa. Sei onde ela está. Vou procurá-la.

MULHER 6: Não vai nada, Ana.

MULHER 9: Não faça isso.

ANA: Mas ela precisa de ajuda!

MULHER 1: A menina é pequena e muito rápida. Tem mais hipóteses de voltar sozinha pelo seu próprio pé do que vocemessê tem de voltar com vida.

MULHER 2: Não se esqueça do encontro que teve com os franceses.

MULHER 1: E não se esqueça de que é uma mulher!

ANA: Também vocemessê? Mas o que é que isso quer dizer?

MULHER 1: Ser mulher não é o mesmo que ser homem.

MULHER 2: Muito menos durante uma tentativa de invasão.

ANA: Não é preciso dizerem mais nada. (Olha para TERESA. Pausa longa.) Mas não importa. Sai. TERESA corre atrás dela.

TERESA: Está maluquinha, mulher?

ANA: Não comece.

TERESA: Esqueceu-se de onde acabámos de vir? Raios a partam, ainda não percebeu que o melhor que tem a fazer é ficar sossegada, junto dos seus filhos, e não se pôr em confusões?
ANA: Está bem.

TERESA: Está bem o quê?

ANA: Está bem, eu volto para o abrigo. E vocemessê vem comigo, não é verdade?

TERESA: Eu? (Pausa.) Não, eu... 

ANA: Bem me parecia.

TERESA: Eu tenho de ir socorrer os feridos da batalha, já não lhe disse?

ANA: E acha que eu vou fazer o quê? Eu não fui a tempo de salvar o meu amigo moleiro... eu não fui capaz de impedir que o meu homem fosse para o combate... E depois de tudo isso, ainda fui eu que deixei a Maria sozinha. Eu tenho que fazer alguma coisa. É esta a minha luta. Não são apenas os homens que combatem pelo nosso país. À nossa maneira, todos fazemos a nossa parte. Não foi o que me disse? Então deixe-me fazer a minha parte!

TERESA: Mas...

ANA: Sabe o que é que me parece?

TERESA: O quê?

ANA: Parece-me que nesta terceira invasão, todos decidiram mandar o povo para a fila da frente, mas cuidam que só os militares é que precisam que os ajudem. Está a ver o fumo? Consegue ouvir os gritos e a confusão, ao longe? O confronto em Sula já começou, é o que isso quer dizer. Mete medo, mas é para lá que vocemessê vai, porque é a sua função. E esta é a minha. Se deixei o meu homem ir, então, também não voltarei as costas ao perigo.

TERESA abraça-a, interrompendo-a. Pausa longa.

TERESA: Se eu pudesse, ajudava-a aqui também.

ANA: Quando tudo isto acabar, sabe onde me encontrar.

TERESA: Sim. Se conseguir, dou-lhe notícias do seu homem.

ANA: Agradeço-lhe.

TERESA: Como é que ele se chama? (Pausa. Escutam. O som de batalha está cada vez mais forte.) Tenho de ir, desculpe! Boa sorte, Ana.

ANA: Boa sorte.

CORO: Canto esta canção
Um conto de uma nação
Canto esta canção
Um conto de uma nação E no seio de um povo Uma voz ergueu a razão
Canto esta canção
Um conto de uma nação Canto esta canção
Um conto de uma nação E no seio de um povo Uma voz ergueu a razão

ANA entra para a casa onde encontrou a menina. Procura a criança por todo o lado, mas não a encontra. Demora-se. Finalmente desiste. Segue caminho, desamparada. Canta juntamente com o coro, até voltar a entrar dentro da gruta. A MULHER 9 olha para ela, como que perguntando pela menina, ANA abana a cabeça. Junta-se ao coro.

Assim que volta o silêncio, a criança aparece no palco, sozinha. Está perdida. Entra um dos soldados franceses, com uma garrafa de vinho na mão, embriagado. A criança fica assustada. O soldado aproxima-se, lentamente. Quando a criança tenta fugir, ele agarra-a por um braço.

FRANCÊS 1: Comment tu t’appelle?

CRIANÇA: O quê?

FRANCÊS 1: Comment tu t’appelle?

(A criança não responde. Fica cada vez mais assustada. O soldado olha para trás.) Robert! Martin!

Aparecem outros dois soldados franceses. Um deles tem uma garrafa de vinho na mão, outro uma maçã.

FRANCÊS 2: Bonjour, fille jolie. Quelle poupée jolie. (Aproxima-se. Ajoelha-se.) Pomme.

Oferece-lhe a maçã. A criança come, esfomeada. Ela dá-lhe a boneca.

CRIANÇA: Boneca.

FRANCÊS 2: Boneca.

FRANCÊS 1 e 3: Boneca.

O FRANCÊS 3 levanta-se, dá a mão à criança e seguem caminho, juntos.

Entram MASSENA e PAMPLONA.

Cena VII

MASSENA: Ele não pode fazer isto!

PAMPLONA: Ele quem, Marechal?

MASSENA: O general Ney, essa nódoa de general, esse imbecil, idiota, parvalhão, ranhoso, filho de...

PAMPLONA: Mas o que é que ele fez?

MASSENA: Convidaram-me a jantar com alguns generais, O Reynier, o Ney e poucos mais, e eu já sabia - eu já sabia! - que não ia dar coisa boa, porque a mademoiselle Henriette Lebreton não suporta a companhia de nenhum desses brutos. E com razão!

PAMPLONA: Eles bateram-lhe?

MASSENA: Não seja tonto. Eu sentei Henriette entre o Ney e o Montbrun, mesmo no meio dos dois, e esses nojentos acharam bem passar o jantar a conversar entre eles, sem dirigir palavra a Henriette. Evidentemente que ela desatou num pranto, começou a gritar, a chorar, até que desmaiou e deu com a cabeça no chão.

(Pausa. PAMPLONA tenta não rir.)

PAMPLONA: Uma infelicidade, deveras, Marechal. Quer que vá falar com o general Ney?

MASSENA: Deixe-se estar, já lhe dei uma descompostura das antigas. Tenho de pensar no nosso plano de ataque, agora. Vou aproveitar o tempo em que Henriette está a ser assistida pelos médicos.

PAMPLONA: Quer então dizer que vamos, de facto, dar ordem de ataque.

MASSENA: Como é evidente. E mais cedo do que tarde.

PAMPLONA: Marechal, não me parece ser...

MASSENA: Não lhe parece ser? Não lhe parece ser? Talvez por isso é que eu estou aqui e o Pamplona está aí. Gostais muito de manobras, de evitar o perigo, mas acabaram-se as manobras. Esta é a primeira vez que Wellington se sujeita a dar batalha, e eu não vou deixar escapar a ocasião.

PAMPLONA: Não sou o único a discordar deste ataque.

MASSENA: Não é o único, não.

PAMPLONA: O General Ney é o que menos concorda.

MASSENA: Mais um motivo para avançar com o meu plano. Ouça, eu estou farto destas estradas e estradinhas terríveis que temos encontrado, há semanas que não vemos nada vivo à frente e os soldados estão em desânimo. O facto de as forças anglo-lusas estarem dispostas a combater permite-nos acabar com este inferno de uma vez por todas. E já estamos atrasados. É agora ou nunca, digo-lhe eu. Bastará o ataque de Reynier para romper a linha deles. Se conseguirmos isso, Wellington não vai conseguir retirar-se sobre Coimbra e, por conseguinte, sobre Lisboa. (Pausa curta.) Não me ouviu dizer que estamos atrasados? Faça-me o favor de organizar e movimentar as tropas e enviar as cartas necessárias para dar a ordem de ataque. E se por acaso no caminho encontrar Wellington, diga-lhe que pode esperar-nos na madrugada do dia 27.

PAMPLONA: Assim farei.

PAMPLONA sai. A luz muda.

CORO: Benedictus Qui venit In nomine Domini Hosanna in excelsis

O CORO continua a cantar, sem letra. Entretanto entra WELLINGTON, fazendo simetria com MASSENA.

MASSENA: No dia 27 de Setembro, o exército atacará as alturas ocupadas pelo exército inimigo: O II Corpo atacará a direita do exército inimigo; O VI Corpo atacará pelos dois caminhos que o conduze-m à estrada de Coimbra, e O VIII Corpo reunir-se-á na retaguarda de Moura, às 6 horas da manhã. Tomará posição para apoiar, se necessário, os corpos de exército atacantes e para marchar, ele mesmo, contra o inimigo.

Cena VIII

WELLINGTON e MASSENA viram-se um para o outro. Música. As tropas anglo-lusas e francesas vão entrando no palco muito lentamente, tomando as suas posições.

WELLINGTON: Darei início à recapitulação das posições das diversas Divisões:

WELLINGTON: Comandada pelo general Hill, a 2a divisão reforçada, entre o Sobral e a Portela de Oliveira;

WELLINGTON: Comandada pelo general Leith, a 5a divisão ficará entre Portela de Oliveira e Santo António do Cântaro;

WELLINGTON: Entre Santo António do Cântaro e a bifurcação para a Cruz Alta, a 3a divisão, ao encargo do general Picton;

WELLINGTON: Comandada pelo general Spencer, estará a 1a divisão entre a bifurcação para a Cruz Alta e a cerca da Mata do Buçaco;

MASSENA: Darei início à recapitulação das posições dos diversos Corpos:

MASSENA: O II Corpo, comandado por Reynier, na região de Santo António do Cântaro;

MASSENA: O VI Corpo, de Ney, estará na região de Moura;

MASSENA: Junot comanda o VIII Corpo e encontrar-se-á à retaguarda do VI Corpo;

MASSENA: A divisão de Cavalaria, sob o comando de Montbrun, à retaguarda do VIII Corpo de Junot;

WELLINGTON: A divisão ligeira encontrar-se-á na região correspondente à curva de estrada em frente à povoação de Sula. Será comandada pelo general Crawford.

WELLINGTON e MASSENA recolhem para o fundo de cena. Ficam os soldados, frente a frente.

WELLINGTON: (De fora.) Ao ataque! MASSENA: (De fora.) Ao ataque!

Todos berram, lutam durante algum tempo. Noutro plano, mulheres do povo correm, espavoridas. Alguém interrompe.

HOMEM: PAREM! (Um grande silêncio. A luz muda, o tempo foi suspenso.

O HOMEM põe- se entre os dois exércitos e entre as mulheres. Todos estão em freeze, tirando ele.) Quem diria. Afinal os franceses sempre botaram cá ao cimo da serra. A questão que se coloca agora é: devo eu ter mais receio dos que sobem ou dos que já cá estavam em cima? (Ri-se.) Um amigo disse- me, há bem pouco tempo: “Um homem não volta as costas ao perigo”, o que me levou a pensar: de facto, o dever de um homem é lutar ao lado dos seus irmãos. Sim, temos de lutar. Lutemos, mas não contra os franceses. Nem contra os ingleses. Lutemos contra a tirania. E o que há de tirano aqui é que as gentes grandes, seja de que lado for, seja de que nação for, não são as que irão sentir na pele as sequelas desta guerra. Temos um país que respeita e se dá ao respeito, é certo, um povo que espalha respeito para aqui e respeitinho para acoli, mas se não aprendermos a pensar, meus irmãos, não conseguiremos impedir que façam gato-sapato de nós. Os bons inimigos comem-nos as cabeças enquanto os maus amigos nos deixam os braços e as pernas para combater, e os grandes senhores dormem sobre grandes sacos de ouro, enquanto nós - o povo, o coração da nação - se arreganha por debaixo desses mesmos sacos, ao carregá-los às costas. Mas não fiqueis desassossegados, que depois de tudo isto o nosso mui-estimado príncipe regente D. João nos enviará, com certeza, um agradecimento por escrito vindo do Brasil, mas não gastará nem um segundo a preocupar-se com o estado em que esta guerra nos vai deixar: destroçados, sem um telhado que nos cubra, uma população inteira a braços com a miséria e a luta pelo pão de cada dia, e porquê? Porque estará tudo queimado, estará tudo feito em ruínas, juntamente com o nosso orgulho. São as leis da guerra, é certo, mas ponham uma coisa na cabeça: NADA DISTO É PARA O NOSSO INTERESSE. (Tira a Bíblia do FREI da bolsa, ostenta-a perante todos.) Está aqui escrito, muito eloquentemente: Lucas 6:20 “Bem- aventurados vocês os pobres, pois a vocês pertence o Reino de Deus. Bem-aventurados vocês que agora têm fome, pois serão satisfeitos. Bem-aventurados vocês que agora choram, pois haverão de rir”. Fui eu que o li, com os meus olhos. Eu risco tudo isso e escrevo por cima (e agora escutai-me com ouvidos de ouvir, que o profeta não se irá repetir):

AS GUERRAS COMEÇAM PELA AMBIÇÃO DOS PRÍNCIPES E FINDAM PELA DESGRAÇA DOS POVOS
EM MEMÓRIA DO POVO PORTUGUÊS
DA SUA FOME, DOR E LUTO
NO DURANTE E NO RESCALDO DAS INVASÕES FRANCESAS EM MEMÓRIA DE UMA NAÇÃO
DESPOJADA DOS SEUS DIREITOS
E QUE NÃO ENCONTRAVA NOS SEUS GOVERNANTES
O APOIO QUE TANTO PRECISAVA

E querem que vos diga mais? “Política da terra queimada”? Meus amigos, queimai-vos uns aos
outros que a mim não me queimam mais. (Ri-se descontroladamente.)
Quereis saber o meu nome?
Aqui vai, pela primeira e última vez o digo: O MEU NOME É NINGUÉM
E QUERO SER FELIZ PORRA
QUERO SER FELIZ
AGORA

(Há um tiro. O HOMEM cai de costas. A Batalha do Bussaco recomeça como se nada a tivesse interrompido, enquanto ele se arrasta para fora do palco. A batalha começa a cessar, aos poucos.)

CORO: Sob as ruínas em chama Paira o sonho da vitória Mas a realidade é outra, Onde fica a nossa glória?

Cena IX

(As luzes sobem, fechadas sobre Massena. Ouve-se a voz de vários generais franceses, indistinguíveis, perto dele.)

VOZES: Acabou.

As tropas anglo-lusas venceram.

Wellington levou a melhor.

Não devíamos ter atacado.

Dissemos-lhe que a sua forma não era a melhor forma. Dissemos-lhe que Wellington tinha vantagem. Dissemos-lhe que este caminho seria o mais difícil. Devíamos ter contornado a Serra do Buçaco. Devíamos ter atacado todos ao mesmo tempo.
Devia ter-nos dado ouvidos.

Devíamos ter feito muitas coisas de diferente forma. Mas não as fizemos de diferente forma.

Fizemo-las à sua maneira, Marechal.

MASSENA: Nada está perdido. Pensemos na estratégia para o que aí vem.

VOZES: Com certeza poderemos atravessar agora a Serra. Wellington terá já dispersado.

Não temos a certeza disso.

Devíamos retirar-nos para Almeida ou Ciudad Rodrigo, onde já fomos vencedores. Digo que contornemos a Serra do Buçaco.

Exactamente.

Abandonemos o objetivo de chegar a Lisboa, tentemos antes marchar para o Porto. Não há sentido nenhum nisso.

Temos sempre a hipótese de tentar batalhar de novo pela Serra.

Sim, agora já conseguiremos delinear um plano muito mais inteligente.

MASSENA levanta a mão. Todos se calam repentinamente.

MASSENA: Todas as opiniões têm o seu mérito, mas felizmente ainda sou eu que tenho o poder da decisão. General Ney, a sua proposta de marchar para Ciudad Rodrigo ou Almeida é indescritível: seria o mesmo que admitir a derrota perante o Leopardo, coisa que não hão de ver acontecer. General Reynier, o Porto não é o nosso objetivo, mas sim Lisboa. Não vou dar tantos passos para trás, nem a política da Terra Queimada mo permitiria fazê-lo em condições. (Pausa.) Temos de contornar a Serra, é a única opção viável. Mandai os homens que forem necessários para fazer o devido reconhecimento do terreno, e trazei-me notícias assim que as houver. (Pausa.) Agora deixai-me sozinho e chamai mademoiselle Henriette Lebreton.

MASSENA sai. Todos saem.

Cena X

O FREI e TERESA estão no campo de batalha. Os mortos e feridos vão sendo retirados do palco por arrasto, à medida que a cena avança.

FREI: Na I divisão de Spencer, 141 mortos; Na III Divisão de Picton, 473 mortos;

Na V Divisão de Leith, 191 mortos;

Na Divisão ligeira de Crawford, 177 mortos; Brigadas portuguesas independentes, 244

TERESA: No II Corpo de Reyner, 1173 mortos; 1041 na Divisão de Merle e 978 na Divisão de Heudelet.

O VI corpo de Ney, temos 2456 mortos;

Na Divisão de Marchand - 1173; Na Divisão de Mermet - 24;

Na Divisão de Loison - 1252;

7 mortos do Estado-maior.

mortos, o que prefaz 1226 infantaria.

20 mortos na artilharia.

6 no Estado-maior.

mortos na

TERESA: Vejamos agora o total de mortos.

FREI: Deixe isso agora, menina.

TERESA: Como?

FREI: Não quero saber essas contas agora. Basta-me esta imagem. Mais logo vemos qual foi o número total.

TERESA: Nunca o vi assim, Frade.

FREI: Não é fácil assistir aos resultados de um ódio tão grande. TERESA: Não creio que seja o ódio que alimente esta guerra. Pausa.

FREI: Certo. Pode ser que Napoleão não odeie Portugal. Pode ser que não odeie sequer a Inglaterra. Mas se isso é verdade, o que vemos agora não me traz mais sossego ou justificação, mas o dobro da tristeza.

TERESA: Não se quer sentar um bocadinho?

FREI: Devíamos ajudar a socorrer estes homens. (Juntam-se a um soldado, no chão.) Deus o abençoe.

SOLDADO 1: Eau.

FREI: Sente-se bem?

SOLDADO 1: Eau.

TERESA: Eau. É água em francês.

Dá-lhe água de um cantil. O soldado é arrastado para fora de cena. Juntam-se a outro soldado.

FREI: Deus o abençoe.

SOLDADO 2: Frei José. Folgo em vê-lo.

FREI: Folgava mais se me visse de pé. Consegue levantar-se?

SOLDADO 2: Não consigo, Frade.

TERESA: Venham buscar este homem!

O soldado é arrastado para fora de cena.

FREI: Tão estranho me parece que nenhum deles clame por Deus, como seria de esperar que uma multidão de Cristãos à beira da morte. (Juntam-se a outro.) Deus o abençoe.

SOLDADO 2: Lavo as mãos das minhas crenças.

FREI: Em que acredita, então?

SOLDADO 2: Acredito no frio e no vento. Acredito no que os nossos governantes não nos dizem. Acredito na bala que me perfurou a perna e, a partir de agora, acreditei só nos que não acreditam em nada.

O soldado é arrastado para fora de cena. O FREI olha em volta.

TERESA: Em que pensa?

FREI: Fiz um amigo, não há muitos dias atrás, num acampamento militar, nas matas do Bussaco. Não o vi durante as contagens, por isso suponho que esteja completamente irreconhecível. Tenho pena.

TERESA: Como se chama esse homem? Pausa. O FREI tenta lembrar-se.

FREI: Esqueci.

TERESA: Que pena.

FREI: Mas a sua mulher chama-se Ana. Pausa. O FREI chega-se à frente.

ontem
encontrei um rato que
sentado na borda do Atlântico contemplava o fim do mundo alheio dando-se conta da sua
pequenez
lançou-se às cidades
à procura do seu
sentido e agatanhando-se por alimento
enquanto causava preocupações desmesuradas naqueles que querem sempre ter uma casa limpa
hoje
da sua pequenez não resta nada
excepto a humilhação
provocada aos que lhe são grandes
sem família nem
amigos ratos nem
o Deus dos ratos
o Deus dos
cemitérios pequenos
está morto
falhou-lhe
falhou-lhes na exacta medida em que não falhou aos outros ratos àqueles que cheiram
bem
amanhã
continuarei a gostar dos ratos porque são pequenos e porque cheiram
mal

Pausa.

TERESA: Vamos, Frade. Tente recompor-se. Mais logo há a comemoração da Batalha, e a população vai estar à espera que compareça. Com esse espírito, como espera subir os ânimos dos que perderam os seus na Batalha?

Cena 11

Música festiva. O povo entra no palco. Dá-se início a uma grande festa em comemoração da Batalha do Bussaco. As mulheres da Mealhada dançam, o FREI e TERESA observam. No auge desta dança entra O MENSAGEIRO, que interrompe a comemoração.
O MENSAGEIRO: Se me permitem. Trago-vos uma mensagem pensada e redigida pelo próprio comandante-em-chefe do nosso exército. O ilustríssimo Lord Wellington. (Lê.) “DE LORD WELLINGTON AOS HABITANTES DA MEALHADA, PAMPILHOSA, MORTÁGUA, PENACOVA E DEMAIS FREGUESIAS EM REDOR: Meus amigos e companheiros nesta batalha - compatriotas ou não - se me permitis...”
Num ooutro plano de realidade, entra WELLINGTON.

WELLINGTON: ...tenho uma ou duas coisas importantes a dizer. Portugal sempre me pareceu uma pequena lagoa junto a um vasto oceano repleto de monstros marinhos com uma dimensão maior que o próprio país. Creio que a vida num país pequeno é sempre sujeita a ser, acima de tudo, uma vida de privação e de carência em relação àqueles que lhe são maiores. (Pausa.) Mas não é isso que tenho verificado dos soldados e do povo deste país. A guerra contra os franceses não acabou no Buçaco, podemos estar bem certos disso. Hoje, festejamos e esvaziamos todas as pipas que nas adegas houver, com a salvaguarda de que o vinho que bebermos hoje pode muito bem vir a transformar-se nas lágrimas de sangue dos dias de amanhã. Contudo, muito me apraz informar-vos que, ou muito me engano, ou a nossa vitória na Batalha do Bussaco será para sempre vista como um momento indispensável na reviravolta da nossa guerra contra os franceses de Massena. É também com imensa felicidade que vos digo que muitos mais foram os que viveram do que os que morreram nesta particular contenda, e em relação a esta segunda questão, é essencial louvar, em primeira instância, a pura tenacidade dos regimentos portugueses. Às 6 da manhã do dia 27 o inimigo fez dois desesperados ataques sobre a nossa posição. O major-general Picton, em particular, reporta a excelente conduta dos regimentos portugueses 0o e 21, comandados pelos tenente coronéis Sutton e Araújo Bacellar, da artilharia portuguesa. Eu próprio posso assegurar que nunca presenciei um mais bravo e ousado ataque do que o que foi feito pelo regimento português no 8 sobre a divisão do inimigo, que havia subido a serra. Todo o exército se comportou da maneira mais regular e se acha cheio dos mais altos e bons espíritos. Se algum dia duvidei das capacidades das tropas portuguesas, peço que me perdoem. Parece, afinal, que muitas pequenas lagoas conseguem formar um grande rio, desde que se conservem bem cuidadas e despoluídas. Bem hajam.

O MENSAGEIRO: “...desde que se conservem bem cuidadas e despoluídas. Bem hajam”. WELLINGTON e O MENSAGEIRO saem. A festa recomeça como se nunca tivesse sido interrompida. Em algum momento, a música adquire um tom bizarro.

TERESA: São os franceses!

Todos saem a correr, aos gritos. As luzes descem até ao mínimo.

CORO: Há um sopro ao vento
Do inimigo que não poupa
Bendito seja o nosso pão
Que nos faz marchar pela nação
Por três vezes invadidos Por três vezes massacrados Canto esta canção
Que por Wellington nasça O triunfo da nação

O Coro continua a cantar, sem letra. TERESA entra sorrateiramente em palco, para à porta do abrigo. ANA vem à porta.

TERESA: Ana?

ANA: Sim. Diga-me. Pausa longa.

TERESA: O seu marido...

CORO: Sob as ruínas em chama Paira o sonho da vitória Mas a realidade é outra Onde fica a nossa glória? 5