GUIÃO | EPISÓDIO 8


Personagens

SOLDADO FRANCÊS - IURI DOS SANTOS TERESA - JOANA SARABANDO
ANA - MARTA PIRES
FRADE - SÉRGIO GALVÃO
PADRE - VIVALDO SOARES
HOMEM - JOÃO TARRAFA
DUARTE e HENRIQUE - AFONSO PIRES e TOMÁS PIRES
HOMENS, MULHERES e CRIANÇAS DO POVO - ANA SOARES (AM) | CARMINDA FERREIRA (AM) | ELISABETE SOUSA (AM) | SUZY GALVÃO (AM) | CAROLINA GALVÃO (AM) | JOAQUIM GALVÃO (AM) | MARIANA NEVES (AM) | JOSÉ LOPES MACHADO (OTC) | NOÉMIA LOPES MACHADO (OTC) | CELESTE OLIVEIRA (GREHC) | CONCEIÇÃO FEBRA (GRECH) | GLÓRIA SIMÕES (GREHC) | LEONARDO FAJARDO | SANTIAGO FAJARDO | ANTÓNIO CRUZ
SOLDADOS PORTUGUESES - ANTÓNIO RAMOS (GREHC) | CARLOS SIMÕES (GREHC) | LUÍS COSTA (GREHC) | RODRIGO OLIVEIRA

Cena I

Sem luz de cena, ouve-se a seguinte voz-off entre ANA e ENFERMEIRA, e o FRADE:

ANA: Teresa, sei que está de partida. Peço-lhe, tente encontrar o meu homem, diga- lhe para voltar para junto de nós. Diga-lhe que eu e os meninos estamos à sua espera.

ENFERMEIRA: Farei por encontrá-lo, Ana. Não vou descansar enquanto não a vir nos braços do seu homem. (Para o FRADE.) Vossa Paternidade, o meu nome é Teresa e voluntariei-me para o acompanhar no rescaldo desta batalha. Farei o que for preciso para ajudar.

FRADE: Que Deus esteja convosco. Senhorita, preciso de avisá-la que podemos assistir a imagens muito fortes. Infelizmente, já assisti a um pouco de tudo.

ENFERMEIRA: Não se preocupe, Frade. Estarei preparada para o pior, foi esse o meu juramento.

FRADE: Vamos então proceder à contagem de baixas e feridos depois desta dura batalha. O nosso caminho vai começar pela igreja de Casal Comba.

Cena II

ENFERMEIRA entra em cena. Começa a música e coreografia:

SOLDADO: Aide-moi.

ENFERMEIRA: Quem está aí?

SOLDADO: Aide-moi, s’il te plaît.

O SOLDADO está encostado aos fardos de palha, muito ferido.

ENFERMEIRA: (À parte.) Não posso crer... Francês. (Hesitando.) É nosso dever ajudá- lo. (Hesitando.) No leito da morte, ninguém é inimigo. (Hesitando.) Não somos pessoas de bem apenas quando ajudamos o amigo, mas sim... quando temos a coragem de ajudar o inimigo.

Coreografia. ENFERMEIRA e o SOLDADO ficam frente a frente.

ENFERMEIRA: Ninguém pode saber que é Francês. O meu nome é Teresa. E tu? SOLDADO: Je m'appelle Jean Colet.

ENFERMEIRA: Não. O meu nome é João Coleta.

SOLDADO: (Pouco, mas com sotaque.) O meu nome é João Colet. ENFERMEIRA: Coleta!

SOLDADO: João Coleta.

Entra o FRADE, de passagem: FRADE: Boa tarde, menina Teresa.

O SOLDADO acena com a cabeça.

TERESA: Boa tarde, Frade.

FRADE: Vejo que está bem acompanhada.

TERESA: (Nervosa.)Ah, ele não fala... É mudo! É um primo que está a viver connosco, sabe... depois destas invasões, ficou sem ninguém.

FRADE: Estou a ver... Bom, tenho de ir, com a vossa licença, Deus vos abençoe. (sai) SOLDADO: Gostar que menina Teresa me ensinar falar português.

TERESA: Seria uma honra.

Vou buscar o livro. Coreografia com o livro.

SOLDADO: Tenho muitas saudades de casa.

ENFERMEIRA: Irás, certamente, encontrar uma família. Irás encontrar e criar a tua casa, aqui, em paz.

SOLDADO: Eu já encontrei quem tomasse conta do meu coração. (De joelhos e com uma rosa vermelha.) Teresa, querer ser a minha família?

ENFERMEIRA: Sim.

O SOLDADO sai.

Cena III

Entram as MULHERES DO POVO, inclusive ANA e colocam-se em volta de TERESA para se preparar para o casamento. O SOLDADO FRANCÊS, O PADRE, bem como todos os figurantes já estão prontos para dar incio à cerimónia.

PADRE: Uma vez que é vosso propósito contrair o santo Matrimónio, uni as mãos direitas e manifestai o vosso consentimento na presença de Deus e da sua Igreja. Meninos aproximam-se e dão as alianças.

SOLDADO (a colocar a aliança no dedo): Eu João Coleta, recebo-te por minha esposa a ti Maria Teresa de Jesus, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.

TERESA (a colocar a aliança no dedo): Eu Maria Teresa de Jesus, recebo-te por meu esposo a ti João Coleta, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.

PADRE: Confirme o Senhor, benignamente, o consentimento que manifestastes perante a sua Igreja, e Se digne enriquecer-vos com a sua bênção. Não separe o homem o que Deus uniu. Pode beijar a noiva.

Quando estão para se beijar, entram as crianças a correr, interrompendo.

RAPAZ: Eles vêm aí! Eles vêm aí!

Há burburinho entre todos. As pessoas ficam alarmadas, pensam que são os franceses que lá vêm.

PADRE: Silêncio! (Faz-se silêncio. Para o RAPAZ.) Quem é que vem aí, rapaz? São os soldados franceses?

RAPAZ: Não, sr. Padre. São os soldados feridos portugueses.

HENRIQUE: O nosso pai vem aí!

Começa música. Todos se juntam para verem os soldados a chegar. Vemos vários reencontros entre os homens e as suas esposas, mães, filhos. Ana vai esperando e procurando pelo marido, mas ele não chega.

MULHER: E o meu filho, alguém sabe dele?

SOLDADO PORTUGUÊS: Não sobreviveu. Lamento.

A música pára. A mulher chora. ANA põe os braços à sua volta.

ANA: Sei que isto não é consolo nenhum, mas pelo menos podemos sofrer juntas. Parece que o meu marido também não vem. (Pausa.) Meninos? (Procura-os.)

DUARTE: Mãe! HENRIQUE: O pai vem aí!

ANA: Não vem nada, Henrique, não penses mais nisso. Vamos para casa. Quer dizer, para casa não vamos de certeza, mas vamos para outro sítio. Quero estar sozinha.

HOMEM: (Fora de cena.) Ana. Ana.

Aparece o HOMEM, magoado. Os filhos gritam e correm para ele.

HOMEM: Pequeninos! (Abraçam-se.) Cuidado, o pai não está bem.

DUARTE: Porque é que demoraste tanto tempo a voltar?

HOMEM: Porque tive de vir meio a andar, meio a rastejar. (Ri-se. Aponta para o ferimento no ombro.) Sabem o que é isto?

HENRIQUE: Magoaram-te!

HOMEM: Ó filho, achas que alguém magoa o teu pai assim sem mais nem menos? Nunca na vida. Foi assim: estava eu em pleno campo de batalha, sozinho contra quinhentos franceses que estavam à minha frente. Não, oitocentos. Mil e oitocentos. O vosso pai sozinho contra mil e oitocentos soldados franceses. Eu derrotei mil setecentos e noventa e nove, sozinho, em cinco minutos, mas houve um sacaninha que veio por trás sem eu reparar e mandou-me um tiro no ombro. Perfurou-me de um lado ao outro. Toda a gente pensava que eu tinha morrido, mas aqui o pai é forte que nem um touro. (Ri-se.) Podem fazer-me um favor?

DUARTE e HENRIQUE: Sim.

HOMEM: Vão ali ter com a vossa mãe e digam-lhe que eu sei que estou mais feio do que um hipopótamo, mas não a vou morder. Ela pode vir ter comigo e abraçar-me, se quiser.

(Ana ri-se e corre para abraçar o marido.)

ANA: Estás péssimo.

HOMEM: E tu estás melhor do que nunca.

ANA: Parece que não é bem contigo que eu estou a falar.

HOMEM: E não é. Estás a falar com o que a guerra fez de mim.

ANA: E tu estás a falar com o que a guerra fez de mim.

HOMEM: Estou a pressentir que temos muito para contar um ao outro.

ANA: Uns aos outros. (Aponta para os filhos.) Estes sacaninhas também sofreram com isto tudo.

Abraçam-se todos.

HOMEM: Agora que estamos todos juntos, vamos poder reconstruir a nossa casa. E depois disso, reconstruiremos Portugal.

Cena IV

Música soturna.

HOMEM: (Para o público.) A Batalha do Buçaco, que se deu a 27 de setembro de 1810, foi um marco decisivo na luta contra os franceses de Masséna. Depois da sua derrota, o marechal, vendo o seu exército desmoralizado, cansado e esfomeado, decide avançar diretamente para Torres Vedras para um ataque final e fatal. Entre pequenos conflitos, lá chegou e constatou, abismado, que não iria conseguir transpor a linha defensiva de Wellington, que já lá se encontrava à sua espera.

Quatro semanas ficaram nesta situação, até que no dia 6 de março de 1811, houve alguém que comunicou a Wellington que os franceses se haviam retirado durante a noite, deixando ainda as fogueiras acesas nos acampamentos.

ANA: De setembro de 1810 a abril de 1811, o exército francês perdeu cerca de 25.000 homens. Concluídas as Invasões Francesas, resta-nos pensar: o que foi feito do povo deste país? Os livros de história falam-nos detalhadamente sobre Masséna, sobre Wellington, Napoleão, Junot, Soult...

HOMEM: ...e parece-nos que o maior marco de respeito que recebemos até hoje pelo nosso empenho e sofrimento foi, ironicamente, o agradecimento por escrito vindo do Brasil por parte do nosso príncipe regente D. João VI.

Os filhos do HOMEM trazem a sua guitarra.

ANA: (Com sarcasmo.) Talvez os livros de história tenham razão. A bem dizer, quem batalhou não fomos nós, nem sequer os soldados, mas sim os grandes senhores, com grandes fios de marionetas em cada dedo das suas mãos. No final das Invasões, todos perdemos.

HOMEM: A única guerra legítima é contra quem a provoca. A única guerra legítima é contra a tirania. (Toca o “Hino das Invasões Francesas”.)

ANA: Hoje, o povo português socorre os seus feridos, chora os seus mortos e canta a sua canção, a que nos uniu nesta invasão.

Cantam.

Canto esta canção
De guerra e paixão Canto esta canção
De guerra e de paixão De um tempo que passou De um terror que se instalou
Canto esta canção Um rasto de uma invasão Canto esta canção Um rasto de uma invasão Pelas tropas enfrentadas Pelas vidas adiadas
Canto esta canção Um conto de uma nação Canto esta canção Um conto de uma nação E no seio de um povo Uma voz ergueu a razão
Canto esta canção
De alma e coração
De uma Pátria desarmada Por Napoleão destroçada