GUIÃO | EPISÓDIO 7


Personagens

Dois SOLDADOS FRANCESES, um mais velho que o outro - DIOGO BINNEMA e IURI DOS SANTOS
ANA - MARTA PIRES
DUARTE e HENRIQUE, filhos de Ana - AFONSO PIRES e TOMÁS PIRES

Nota: O símbolo / sugere uma interrupção ou um atropelamento no discurso entre uma fala e a seguinte.

Cena I

Dois soldados franceses aparecem no pátio da Capela de Sant’ana, embriagados. O MAIS NOVO com uma garrafa de vinho na mão, O MAIS VELHO com uma lanterna. Cada um tem um saco grande, cheio. Entram a cantar a Marselhesa, o hino da França.

Allons, enfants de la patrie, Le jour de gloire est arrivé. Contre nous, de la tyrannie, L’étendard sanglant est levé!

Um deles experimenta fazer a melodia com segunda voz. O outro perde o tom inicial. Tentam novamente fazer a harmonia, várias vezes, de maneiras diferentes, até que desistem. Vão bebendo vinho.

O MAIS NOVO - Olha lá, porque é que nunca mais se ouviu cantar isto?

O MAIS VELHO - O quê?

O MAIS NOVO - O hino.

O MAIS VELHO - A Marselhesa?

O MAIS NOVO - Sim, o hino, o hino da França! Há uns anos era dia e noite a cantar o hino, e depois, da noite para o dia, a música desapareceu, ninguém a ouve e ninguém a canta.

O MAIS VELHO - Foi proibida.

Pausa.

O MAIS NOVO - Proib... Eu não posso cantar o hino do meu país?

O MAIS VELHO - Por mim podes cantar o que quiseres, o que eu te estou a dizer é que o hino - esse hino - foi proibido. Já não é o hino.

(Pausa.) Podes cantar o actual.

O MAIS NOVO - Mas eu não posso cantar o que me apetece?

O MAIS VELHO - Camarada, não sou eu que faço as regras.

O MAIS NOVO - Então quem é que faz? Eu não sou.

O MAIS VELHO - Nem eu.

O MAIS NOVO - Então quem é?

Pausa.

O MAIS VELHO- Napoleão?

Pausa. O MAIS NOVO pondera.

O MAIS NOVO - Estás bêbado. Napoleão não ia proibir que se cantasse o hino...

O MAIS VELHO - Diz que incitava demasiado à revolução. (Pausa.) Eu não estou bêbado. Estou bem. E tu?

O MAIS NOVO - Não podia estar melhor. E tu?

O MAIS VELHO - Também. E tu, também? (Pausa.) Esquece. (Bebe.) Mas sim, proibiu.

O MAIS NOVO - O quê?

O MAIS VELHO - O hino.

O MAIS NOVO - Quem?

O MAIS VELHO - Napoleão!

O MAIS NOVO - Ah.

O MAIS VELHO - Não ouviste nada em relação a isso?

O MAIS NOVO - Quem é que te contou?

O MAIS VELHO - Sei lá. Pensei que tinhas sido tu.

O MAIS NOVO - Que eu me lembre, não.

O MAIS VELHO - Então, não sei. (Pausa. Bebe.) Mas sim, proibiu.

O MAIS NOVO - Quem?

O MAIS VELHO - Napoleão.

O MAIS NOVO - O quê?

O MAIS VELHO - O HINO!

O MAIS NOVO - Ah!

O MAIS VELHO - O HINO DA FRANÇA! A MARSELHESA!/ O MAIS NOVO - Calma...

O MAIS VELHO - TU NÃO OUVES?

O MAIS NOVO - Quem berra perde a razão.

O MAIS VELHO - Quero lá saber da razão!

O MAIS NOVO - E eu quero lá saber do Napoleão!

O MAIS VELHO - Quê?

O MAIS NOVO - Quero lá saber do Napoleão!

O MAIS VELHO - Cuidadinho... 

O MAIS NOVO - Porque é que o homem não calça as botas e não vem aqui lutar ao nosso lado contra os portugueses?

O MAIS VELHO - Porque ele é o imperador, imbecil. Ele não luta. 

O MAIS NOVO - Por isso mesmo.

O MAIS VELHO - Ele impera. Faz acontecer.

O MAIS NOVO - Ele é que está com problemas com os portugueses e os ingleses, ele é que começou esta guerra, ele é que devia estar aqui de armas em punho. Eu dos ingleses - sou sincero - não gosto, mas não tenho nada contra os portugueses, nunca nenhum português me fez nada de mal.

O MAIS VELHO - Como é que podes dizer isso depois da tareia que levámos no Bussaco? O MAIS NOVO - Mas nós é que começámos, entendes? Não foram eles, eles estavam aqui quietos e sossegados até nós entrarmos pelo país deles adentro.

O MAIS VELHO - (Apontando para o saco.) Se és tão amigo dos portugueses, porque é que roubas o que é deles?

O MAIS NOVO - Calma lá, isso é outra conversa.

O MAIS VELHO - Então?

O MAIS NOVO - Quem tem a culpa disso não são eles. É o Wellington, mais a sua política da terra queimada, que nos põe na posição de termos de escolher entre a vida e a morte. (Tira uma garrafa do saco.) Além disso, os vinhos daqui são demasiado deliciosos para serem deixados para trás.

O MAIS VELHO - Nisso concordamos.

O MAIS NOVO - Abrimos a última?

O MAIS VELHO - Vamos a isso.

O MAIS NOVO - Mas se vamos encher, preciso de esvaziar primeiro.

O MAIS VELHO - Faça favor.

O MAIS NOVO - Sacre bleu. Estou pior do que pensava. (Encosta-se à igreja e começa a desapertar as calças.)

O MAIS VELHO - O que é que estás a fazer?

Pausa.

O MAIS NOVO - O meu pai chamava-lhe desbeber.

O MAIS VELHO - Desbeber, meu animal?

O MAIS NOVO - Tirar a água do joelho, se /preferires.

O MAIS VELHO - Isto é a casa de Deus, estúpido. (Pausa. O MAIS NOVO não tem resposta.) Atrás da capela tem uns arbustos.

Pausa.

O MAIS NOVO - Então vem comigo. O MAIS VELHO - Porquê?

O MAIS NOVO - Não sei. Tenho medo.

O MAIS VELHO - O quê?

O MAIS NOVO - Não conheço este sítio...

O MAIS VELHO - Mas tu

O MAIS NOVO - ...e está escuro.

O MAIS VELHO - Tu és um soldado do exército mais formidável do mundo!

O MAIS NOVO - (Apontando para a perna.) Mas magoei-me durante a batalha e sinto-me desprotegido.

O MAIS VELHO - (Rindo-se.) Desprotegido. Contra quem? Pausa.

O MAIS NOVO - Anda lá!

O MAIS VELHO - Queres que te dê a mão?

O MAIS NOVO - Não.

O MAIS VELHO - Anda lá, princesa.

O MAIS NOVO - Olha o saco.

O MAIS VELHO - Deixa-o estar.

O MAIS NOVO - Deixo-o estar?

O MAIS VELHO - Quem é que tu achas que anda por aí a estas horas?

O MAIS NOVO - Eu e tu, para começar. Eu levo isso.

O MAIS VELHO - (Com agressividade.) Não toques no saco.

O MAIS NOVO - Eh! Calma lá, grandão! Não te quero chatear. (Dando-lhe socos a fingir.) Mas não me rosnes assim. Não queres que te faça um dos meus truques, pois não?

O MAIS VELHO usa o ímpeto de um dos socos para apertar o braço ao outro, com grande facilidade. O MAIS NOVO queixa-se.

O MAIS VELHO - Não toques no saco. Pega no saco. Saem pela direita.

Cena II

Entram pelas escadas da esquerda ANA e os seus filhos, DUARTE e HENRIQUE. Ela carrega um saco com pouca coisa.
HENRIQUE quase que segue por onde saíram os dois soldados.

ANA - Henrique! Não vás para aí. Fiquem onde vos possa ver. (Os filhos circulam, observam a capela. ANA pousa a bagagem, examina o espaço.) Andem cá, vamos dormir. Não é um sítio perfeito, mas com sorte passa alguém que nos dê comida. (Vê no saco.) Já não temos muita. Têm fome?

HENRIQUE - Sim!

DUARTE - Muita fome!

ANA tira um pão do saco, parte-o ao meio e dá uma metade a cada um. Comem rápido. ANA - Tenham calma, comam devagar.

Pausa. HENRIQUE treme.

ANA - Tens frio?

HENRIQUE - Sim.

ANA - Chega aqui. (Tira uma manta do saco, cobre o filho com ela.)

DUARTE - Mãe?

ANA - Diz.

DUARTE - Porque é que temos de dormir aqui?

ANA - Porque tivemos de sair de casa, filho.

DUARTE - Porque é que tivemos de sair de casa?

ANA - O vosso pai já vos tinha explicado isso... (Pausa. Eles ficam desanimados.) É assim: há um senhor chamado Wellington - um senhor inglês - que veio da Inglaterra de propósito para nos ajudar na guerra contra os franceses que estão a invadir o nosso país. Ora, mesmo quando juntamos as nossas tropas às tropas da Inglaterra, os franceses são muito mais que nós, por isso esse senhor pediu a toda a gente para sair das suas casas e queimar tudo o que os franceses pudessem usar. Especialmente comida. Assim, podemos ganhar aos franceses porque eles não conseguem sobreviver sem comida num país que não é deles. Percebem? (Pausa.) O abrigo que encontrámos era bastante jeitoso, e estávamos em companhia, mas também foi assaltado pelos soldados franceses há uns dias.

DUARTE - Os franceses são maus, não são?

ANA tenta encontrar a melhor maneira de explicar, percebe que é um assunto demasiado complexo.

ANA - Não é assim tão fácil, filho. Pensa assim: um lobo esfomeado é bom ou é mau? (Pausa. Eles não têm resposta.) Vamos dormir, vá. (Tentam dormir. DUARTE mexe-se muito.) Ai, Duarte. Pára com isso. O que é que se passa?

DUARTE - Tenho xixi.

ANA - (Pausa. Suspirando.) Vai atrás da capela, tem lá um sítio bom. Henrique, vai com o teu irmão. Eu já não me aguento das pernas. (Eles saem pela esquerda. Ela levanta-se.) É melhor ir também, nunca se sabe. (Vai para sair, lembra-se da bagagem. Pega nela e olha à volta.) Nunca se sabe. (Sai.)

Cena III

Entram os soldados franceses, pela direita.

O MAIS NOVO - Estava aqui alguém, acho que ouvi vozes. (Explora o espaço. O MAIS VELHO não dá importância, tira duas garrafas do saco e vai abrindo-as.) Devíamos esconder- nos.

O MAIS VELHO - Nós?

(Pausa longa.)

O MAIS NOVO - Já devem ter ido. (Pausa.)

O MAIS VELHO - Não achas que estás nervoso demais por causa disso? (Pausa.)

O MAIS NOVO - Pode aparecer alguém.

O MAIS VELHO - Explica-me: porque é que nós é que temos de nos esconder, caso alguém apareça?

O MAIS NOVO - Em primeiro lugar, não estou em condições de andar à estalada caso seja preciso.

O MAIS VELHO - Sabes para que é que serve isso que tens na mão? O MAIS NOVO - Depois, nós é que temos a prata nas mãos.

O MAIS VELHO - Prata e não só.

O MAIS NOVO - Não só? O que é que tu encontraste?

O MAIS VELHO - Nada.

O MAIS NOVO - Diz lá, grandão.

Pausa.

O MAIS VELHO - Algo que me vai tirar do exército. Pausa.

O MAIS NOVO - Ouro?

O MAIS VELHO - Não.

Pausa.

O MAIS NOVO - E não dá para dividir? (Pausa.) Posso ver? (Pausa. Tenta aproximar-se do saco, o outro saca do sabre.) O grandão tem grandes planos, já percebi. Não precisas de me dizer duas vezes.

Pausa.

O MAIS VELHO - É bem bonita, esta capela.

O MAIS NOVO - Pois é.

O MAIS VELHO - Dá gosto de se ver.

O MAIS NOVO - Sem dúvida.

O MAIS VELHO - Muito simples, claro, mas é nessa simplicidade que está a arte. (Pausa. O MAIS NOVO assente com a cabeça, não responde.) Deus está nos detalhes. (Pausa.) O brilho da grandeza clássica ilumina a nossa época, daí parecer-me quase cínica a austeridade de que o artista se decidiu aproveitar para a construção desta obra. Para mim é uma clara referência à austeridade das comunidades religiosas, que tem estado em contínuo desaparecimento nas últimas décadas, ou mesmo nos últimos séculos. Uma forma de afirmar, possivelmente, que a adoração a um Deus omnipresente, omnipotente e omnisciente não se deve, ou melhor dizendo, não obriga a uma fútil e incessante busca no que diz respeito à aquisição e/ou construção de valores materiais - ainda que pautados pela sua natureza simbólico-religiosa - porque não é nesses valores que se encontra a verdadeira e genuína riqueza, mas na riqueza da energia quase primordial que cada um de nós emprega - ou deveria empregar - na adoração a Deus - ou Deuses, se estivéssemos a referir-nos a uma religião não-monoteísta, que não é o caso. (Pausa longa. O outro está sem palavras.) Não obstante - e claro, evidentemente não conhecendo nenhum outro trabalho do artista em questão - parece-me manifestamente evidente que não será, digamos, o seu magnus opus - que é o mesmo que dizer a sua obra-prima - e que fica - haja honestidade e despudor em dizê-lo - vários passos atrás do trabalho dos grandes mestres franceses. (Bebe. Pausa.) O que é que achas?

Pausa.

O MAIS NOVO - Acho... Aposto que por dentro ainda é melhor.

O MAIS VELHO - Quando estávamos a ver a parte de trás lembrei-me de uma coisa: sabes que há camaradas nossos que andam a descobrir coisas valiosíssimas dentro das capelas?

O MAIS NOVO - Pois claro, se há coisas valiosas é nas capelas, nas igrejas... normalmente é tudo feito a ouro. É como estavas a dizer ainda agora, não é? A austeridade da riqueza e... tal. (Pausa.) Nada que faça juz ao valor do que tu tens aí no saco, aparentemente. (O MAIS VELHO tira um punhal do bolso.)

O MAIS NOVO - Calma, era uma brincadeira.

O MAIS VELHO - Não brinques muito com o fogo.

O MAIS NOVO - “Não brinques muito com o fogo, vais-te queimar.” (O outro aperta-o.) Calma, já percebi. Que chato. (O MAIS VELHO troca o saco de sítio. Para. Olha para o punhal.) O que se passa? (O outro avança em direção à capela.) Ei. Grandão.

O MAIS VELHO - Vou entrar.

O MAIS NOVO - Para quê?

O MAIS VELHO - Não a querias ver por dentro? (Chega-se à porta, tropeça no degrau. O outro tenta ajudá-lo.) Eu estou bem, ó.

Começa a tentar arrombar a porta com o punhal. O outro observa, apreensivo.

O MAIS NOVO - Esta não era a casa de Deus?

O MAIS VELHO - Que dia é hoje?

O MAIS NOVO - Sábado.

O MAIS VELHO - Então, fez folga antecipada. (Ri-se.)

Pausa.

O MAIS NOVO - Devo dizer que isto me deixa um bocadinho triste. (Pausa.) Imagina que, contas feitas, saímos derrotados desta guerra: a única coisa que sobrará dela é o facto de nós, os franceses, termos sido uns sacanas e uns ladrões e sei lá mais o quê enquanto aqui estivémos.

O MAIS VELHO - E então?

O MAIS NOVO - E então, eu não me considero um ladrão, nem acho que tu sejas nenhum sacana. Se fazemos estas coisas enquanto aqui estamos, e se os soldados causam desgraças em certos lugares, isso é fruto da covardia do Wellington. Como ele não consegue jogar forças connosco num frente-a-frente clássico, tradicional, como deve ser, faz estes jogos estratégicos e obriga-nos a roubar tudo e a destruir tudo para poder sobreviver. E o mais engraçado é que os portugueses é que vão ficar a arder quando isto acabar.

O MAIS VELHO - Ouve, se tu dizes que não fazemos isto por capricho mas que somos, enfim, obrigados, então não se trata de sacanice, certo?

O MAIS NOVO - Não sei...

O MAIS VELHO - E às vezes é preciso uma pessoa algo em grande para mostrar um determinado ponto de vista. Pensa na Capela de Vera Cruz, por exemplo, ali na Pampilhesa.

O MAIS NOVO - Pampilhosa.

O MAIS VELHO - Ouviste essa história?

O MAIS NOVO - Não sei.

O MAIS VELHO - A destruição dessa Capela não aconteceu só porque os soldados daquele regimento estavam bêbados. Para além de ser um símbolo, foi uma necessidade.

O MAIS NOVO - Porquê uma necessidade?

O MAIS VELHO - Porque enquanto eles estavam lá dentro em pleno acto de roubar o ouro, apareceram lá fora alguns portugueses, e a única maneira que os nossos arranjaram para escapar foi criar uma distração. (Pausa.) Incendiaram a capela.

O MAIS NOVO - Essa foi a melhor solução que arranjaram?

O MAIS VELHO - Era isso ou matar as pessoas. O que é que achas melhor, ó iluminado? O MAIS NOVO - Mesmo assim...

O MAIS VELHO - Pode não ter sido um plano brilhante, mas resultou. O facto de eles terem feito isso não significa que sejam uns brutos e uns patifes; aliás, foram esses mesmos soldados que poucos dias antes andavam a revolver o chão, esfomeados, à procura de comida, mas que pararam durante horas quando encontraram uma criança portuguesa sozinha no meio do mato. E sabes o que é que fizeram ao bebé?

O MAIS NOVO - O quê? Pausa.

O MAIS VELHO - Queres mesmo saber?

O MAIS NOVO - O que é que eles fizeram ao bebé?

O MAIS VELHO - Nada! Absolutamente nada. Trataram dele, deram-lhe comida que encontraram mais tarde, e ficaram dias a cuidar dele. Nem os brincos de ouro lhe tiraram. Sabes porquê? Porque não são os monstros que tu queres fazer parecer /que sejam. (Pausa.)

O MAIS NOVO - O que eu te estou a dizer é exatamente o /oposto disso.

O MAIS VELHO - A guerra obriga a certas coisas, e quando tiveres mais uns anos disto vais entendê-lo. (Desiste de tentar abrir a porta.)
De qualquer forma, não consigo arrombar nada com isto, portanto nem vale a pena estarmos a discutir.

O MAIS NOVO - Tens a porta do outro lado.

O MAIS VELHO - Faz diferença?

O MAIS NOVO - Claro que faz, a fechadura da outra porta não é destas maciças. Com o punhal e um bocado mais de força, abre-se logo.

O MAIS VELHO - Não podias ter dito isso quando comecei? (Sai pela direita.) O MAIS NOVO - Vais levar o...

O MAIS VELHO - (Fora de cena.) O quê?

O MAIS NOVO - Nada.

Sai pela direita, deixando o saco do MAIS VELHO para trás, onde a luz não incide.

Cena IV

Entram ANA e os filhos pela esquerda.

ANA - Estava aqui alguém, acho que ouvi vozes. (Explora o espaço.) Deve ter sido impressão
minha. (Senta-se.) Andem. Dormir.

Deitam-se juntos, encostados à porta da capela.

HENRIQUE - Tenho frio.

ANA - Eu também, filho.

HENRIQUE - Não consigo dormir.

ANA suspira, procura uma solução. Tira um punhal do saco. ANA - Não queria fazer isto, mas não vamos morrer congelados. Tenta arrombar a porta com o punhal.

DUARTE - Mãe?

ANA - Diz.

DUARTE - Porque é que viemos para aqui?

ANA - Ainda há bocado vos expliquei isso, Duarte.

DUARTE - Mas porquê aqui?

ANA - Porquê nesta capela? (Pausa.) Não sei. Sempre gostei de vir aqui. Brincava muito neste pátio. Vocês não sabem, mas o avô do vosso avô ajudou a construir a capela. Quer dizer, não se sabe isso com certeza, mas é bem provável que sim. Na verdade, já ninguém sabe quem é que a mandou construir, nem com que dinheiro, nem de que forma. Lá dentro, só diz: “Esta é a Casa do Senhor, firmemente edificada em 1716”. (Pausa.) Gosto de pensar que me chamaram Ana por causa desta capela. Santa Ana era a mãe da Virgem Maria, e portanto, avó de Jesus, sabiam disso? (Eles não respondem.) Não sei se Deus costuma ouvir-nos, mas o facto de esta capela ainda não ter sido destruída, como têm sido tantas outras, faz-me pensar que sim. (Enerva-se com o punhal.) Porcaria de fechadura. Abre-te, porra! (Corta-se.) Porra!

DUARTE - O que é porra?

ANA - Nada. Vamos dormir. Não consigo abrir a porta. Deitam-se outra vez, tentam dormir.

HENRIQUE - Tenho xixi.

Pausa.

ANA - Estás a brincar comigo, Henrique? Não podias ter ido quando o teu irmão foi? (Suspira. Tenta levantar-se, mas está demasiado exausta. Desiste.) Duarte, vai com ele. Mas fiquem onde eu vos possa ver.

Eles saem pela esquerda. ANA não os vê a sair, está de olhos fechados e canta, para se manter acordada.

Entre ruínas, entre chamas Paira o sonho da vitória Mas a realidade é outra Onde fica a nossa glória?

Adormece ligeiramente. Apercebe-se da ausência dos filhos.

ANA - Meninos? Pausa. Sai pela direita.

Cena V

Pensa-se que vão entrar os franceses, mas é ANA que volta, pelo mesmo lado. Veio buscar o seu saco, que tinha deixado para trás. Neste moviment, repara no saco que o soldado mais velho deixou para trás. Com medo e entusiasmo, abre o saco para ver o que tem lá dentro. Fica de boca aberta com o conteúdo do saco e quase que chora de felicidade pela descoberta. Ao mesmo tempo, aparece o soldado mais novo, à procura do saco do outro. Não o vê no sítio, repara que ANA o tem na mão. ANA repara no soldado. Ela saca do punhal, na defensiva.

O MAIS NOVO - Dê-me isso. (Ela não se move, não percebe o que ele diz.) Pode dar-me isso e eu deixo-a fugir. Mas está ali um colega atrás que se a vir, vai querer ficar com mais do que o saco.

Lutam rapidamente. ANA consegue levar a melhor e fugir, mas o soldado fica com o saco. O soldado fica queixoso no chão.
Entra o soldado mais velho, já não vê ANA a sair.

O MAIS NOVO - Não conseguiste entrar?

O MAIS VELHO - Consegui. Vim ver o que vieste fazer.

O MAIS NOVO - Há por aí uma mulher à solta, está armada.

O MAIS VELHO - (Apontando para o saco.) Olhaste?

O MAIS NOVO - Não. (Pausa.) Não!

Pausa.

O MAIS VELHO - És muito porco.

O MAIS NOVO - Muito quê?

O MAIS VELHO - Porco e mentiroso.

O MAIS NOVO - Vai a correr atrás dela e diz-me se estou a mentir.

O MAIS VELHO - (Saca do sabre.) E tu ficas a guardar o saco, certo?

O MAIS NOVO - Raios partam o saco, devia era dar-te com ele nessa cabeça estúpida. O que é que tu tens aqui dentro afinal, um perfume que faz crescer o cabelo? Começo a ficar farto da porra do teu saco, daqui a nada atiro-te a ti e a ele por este monte abaixo.
Lutam. O MAIS VELHO leva a melhor, pega no seu saco e sai pela direita. Pausa. Entra ANA, de punhal em riste.

O MAIS NOVO - Saia daqui, para que não lhe aconteça nada de mal.

ANA - (Tentando fazer-se entender.) Crianças. Pequenos. Filhos. Meninos.

O MAIS NOVO - (Sacando do sabre.) SAIA!

Os filhos abrem as duas janelas da capela por dentro e põem a cabeça de fora.

DUARTE e HENRIQUE - Olá, mãe!

ANA - O que é que vocês estão aí a fazer? A porta estava aberta?

HENRIQUE - Sim!

ANA - Saiam já daí, vamos embora. (Pausa.) Meninos, eu não estou a brincar!

HENRIQUE - Mas porquê?

Subitamente, vemos a mão do MAIS VELHO a tapar a boca de HENRIQUE, a puxá-lo para dentro e a fechar a janela. ANA grita. DUARTE grita, e também ele é puxado para dentro. O MAIS NOVO baixa a espada e deixa-a passar. Ela sai a correr em direção à porta traseira da capela.

Pausa.

Por efeito de luz, capela começam a aparecer, gradualmente, primeiros prenúncios de um incêndio.

ANA aparece de novo, sozinha, a correr e a gritar pedidos de ajuda. Sem ninguém para acudir, ela desaparece por onde veio.

As chamas ganham pujança e volume, gradualmente preenchendo toda a área da fachada. No auge do incêndio, uma voz diz-nos:
AS GUERRAS COMEÇAM PELA AMBIÇÃO DOS PRÍNCIPES E FINDAM PELA DESGRAÇA DOS POVOS
EM MEMÓRIA DO POVO PORTUGUÊS
DA SUA FOME, DOR E LUTO
NO DURANTE E NO RESCALDO DAS INVASÕES FRANCESAS
EM MEMÓRIA DE UMA NAÇÃO DESPOJADA DOS SEUS DIREITOS
E QUE NÃO ENCONTRAVA NOS SEUS GOVERNANTES O APOIO QUE TANTO PRECISAVA