GUIÃO | EPISÓDIO 6


Personagens

MASSENA - RÚBEN DIAS
SRA. LEBRE - FILIPA ALMEIDA GENERAL - JOÃO TARRAFA SR. LEBRE - NUNO CANILHO
CRIADO - CLÁUDIO MONTEIRO
SOLDADO 1 - VÍTOR MONTEIRO (AQUILES)
SOLDADO 2 - NUNO MARQUES (AQUILES)
SOLDADO 3 - NUNO GONÇALVES (AQUILES)
Outros SOLDADOS FRANCESES - PEDRO SEMEDO (OTC) | RODRIGO OLIVEIRA | RUI FONSECA (AH)
HOMENS e MULHERES DO POVO - ?
CRIADAS e SERVIÇAIS - MARIANA NEVES (OTC) | INÊS OLIVEIRA (OTC)
INSTRUMENTISTA (Flauta e Harpa) - DAVID LEÃO

INSTRUÇÕES PRÉVIAS
O público, ao ser recebido é dividido por quatro grupos: - Criados;
- Povo;
- Generais;
- Militares.
A frente sala entrega a cada pessoa alguma coisa que os relacione com o grupo a que fazem parte. Por exemplo:
Militares - armas, barretina, casaco, etc.;
Criados - avental, touca, terrina, etc.;
Generais - chapéu, banda, etc.;
Povo - pertences, cestos de comida, etc.

À medida que o público está a entrar, dentro do circuito há uma espécie de cidade viva, com música tocada na flauta pelo instrumentista. Os figurantes e elementos da frente sala, vestidos a rigor, vagueiam pelo espaço, conversam, comem, etc..
O público intervirá em determinados momentos. Os que fazem de tropa não se poderão sentar de imediato, apenas quando houver a ordem para desmobilizarem – alguns soldados poderão ficar em acampamento, se as tendas e a disposição do espaço assim permitir .

Cena I

Ouve-se som de tropas a chegar, cavalos a cavalgar, soldados a falar. Ao portão da casa/tribunal, está um criado. Ao ver a comitiva chegar, corre para a porta de casa e grita.

CRIADO: Meus senhores, aproximam-se tropas Francesas. Pareceu-me ver o próprio comandante do exército Francês!

SRA. LEBRE: (Vindo à porta, juntamente com o SR. LEBRE.) Nem aqui nos deixam sossegados. Mas porque chegam eles à Mealhada, se estavam faz três dias no Bussaco?

CRIADO: Minha senhora, dizem por aí, que aproveitaram a noite para seguir pela estrada que vai para o Porto, a caminho de Boialva, de modo a despistar as atenções de Lord Wellington e conseguirem marchar para Lisboa antes que o exército Anglo-Luso tivesse tempo de se pôr em marcha.

SR. LEBRE: Talvez seja melhor recolhermo-nos e apagarmos todas as velas. CRIADO: Mas Sr., não irão eles invadir a vossa casa, com o intuito de procurar estadia e alimento?

SRA. LEBRE: Não deixaremos que assim seja. Se quiserem pernoitar, que seja por convite, não por força, nem destruição. Esconderemos tudo o que seja de valor e mandaremos avisar os restantes serviçais. (Para o CRIADO.) Prepare-se para receber as tropas, se for caso disso.

SR. LEBRE: Mas para já, façamos como digo. (Para o CRIADO.) Recolha-se, avise os serviçais e apagai tudo o que dê luz.

O casal e o CRIADO recolhem-se. Todas as luzes do edifício se apagam. Entra MASSENA, seguido de um general e de alguns soldados.

Os restantes soldados que se encontravam nas tendas, colocam-se em posição.

MASSENA: (Fazendo sinal para parar a marcha.) Onde estamos?

GENERAL: Segundo consta, na Mealhada, meu general.

MASSENA: Perfeito! E os ingleses, há novidades?

GENERAL: Já se retiraram para Coimbra.

MASSENA: Não tomaram qualquer disposição para defender Boialva e ao que me parece, tomarão a mesma decisão quanto à Mealhada. Montaremos, por isso, aqui mesmo, o quartel general. Ficaremos numa qualquer casa senhorial, onde possamos ser bem recebidos e onde o nosso quartel possa ser um espaço reservado. Tomai parte disso.

O GENERAL, assentindo, dirige-se para as tropas e faz-lhes um sinal inaudível. Os mesmos criam colunas no espaço que abrange o público. O público vestido de soldado é chamado para se juntar a eles. Enquanto isso, MASSENA passeia observando o local.

MASSENA: (Parando em frente ao portão da casa.) Parece-me esta, uma boa casa, onde poderemos encontrar conforto e abundância.

GENERAL: No entanto, julgo estar abandonada, meu marechal.

MASSENA: (Espreitando para as varandas.) O que poderia até ser-nos mais favorável, pelo menos não sofreríamos resistência. Mas creio que se terão esquecido, talvez, daquele pequeno detalhe. (Apontando para a janela.)

GENERAL: Acha que se tentavam esconder de nós?

MASSENA: Certamente ouviram os cavalos a chegar.

GENERAL: Que vela desafortunada! (Ambos riem.)

O GENERAL, seguido de MASSENA, bate à porta da casa. Uma, duas, três vezes.

GENERAL: Abri a porta! Sabemos que se encontram aí dentro. (Volta a bater.) Abri, se não, arrombaremos.

O CRIADO abre a porta e de dentro da casa sai a SRA. LEBRE, seguida do SR. LEBRE.

SR. LEBRE: Não há nisso necessidade!

SRA. LEBRE: Desculpai-nos, estávamos recolhidos e não nos apercebemos da vossa chegada.

SR. LEBRE: Que desejais?

GENERAL: Pernoitar na vossa ilustre casa.

SRA. LEBRE: (Olhando para MASSENA.) Será certamente o excelentíssimo Marechal das tropas Francesas, estarei certa?

MASSENA: Certa, pois!

SRA. LEBRE: Mas que grande honra nos dais, por recebê-lo na nossa humilde casa. Temos todos o gosto em acolhê-lo e aos seus generais. Entrai, sem demoras. (Para o CRIADO.) Mostrai os aposentos a suas senhorias e mande preparar o banquete. (Fazendo sinal para que entrem.)

MASSENA chega-se à frente, para passar pela porta, mas é barrado pelo SR. LEBRE que contrariado, olha com desprezo para MASSENA e ao mesmo tempo com reprovação para a esposa.

SRA. LEBRE: Meu bom homem, que grosserias tendes para com tão ilustre Marechal. Desculpai-o, senhor, está cansado e não pensa corretamente.

MASSENA quase empurrando o SR. LEBRE, entra na casa, seguido do GENERAL e do CRIADO. A SRA. LEBRE dirige-se ao marido.

SR. LEBRE: Que fazeis mulher, estes são os nossos inimigos!

SRA. LEBRE: Estais louco? Se lhes mostramos resistência, pendurarão as nossas cabeças na praça. E lembrai-vos das vossas obrigações para com as nossas gentes. Se não lhes dermos o que precisam, irão procurar aos menos afortunados. Não podemos permitir tal desgraça. Vamos.

Cena II

Entram em casa. Nas janelas da varanda acendem-se as luzes. Na rua, os soldados vagueiam. Pedem ao povo/público por comida, ou simplesmente roubam-na. Uns apontam as armas, outros, audaciosamente puxam pelos pertences do povo/público. Agarram nas mulheres (figurantes) e maltratam-nas, forçando-as a dar-lhes de comer. Aos poucos vão-se recolhendo para as tendas. Da varanda surge MASSENA. Mais tarde, na janela do lado, o casal encontra-se vigilante e temeroso. O instrumentista toca harpa. Ela ajeita o cabelo.

MASSENA: À medida que o nosso exército avança, dou-me conta de que em Portugal apenas encontraremos fome e miséria. Está a ser bem sucedida a tática do ilustríssimo Lord Wellington, onde os portugueses de tudo se desprenderam por manifesto patriotismo. Mas pergunto-me, terão consciência, os Portugueses, dos males que sofrem? (Pausa. Olha para o público. Dirige-se a eles.) Portugueses, quereis mais provas do abandono dos ingleses além da sua inação perante Almeida, Boialva e até a vossa bela Mealhada? Poderei continuar enganados acerca das suas verdadeiras intenções? E 25 000 homens poderão ter durante tanto tempo numa vergonhosa escravatura mais de dois milhões de habitantes? Recapitulai os males que eles fazem pesar sobre vós! Ordenam- vos que deixeis os vossos lares quando eles próprios deles se afastam; levam os cereais e os gados que se destinavam ao sustento das vossas famílias; destroem tudo quanto podia servir para a habitação e para as necessidades da vida, e querem que Portugal fique reduzido a um montão de ruínas porque são obrigados a deixá-lo. Não vedes que, ao forçar-vos a ir com os vossos filhos para junto dos barcos, querem que os velhos e as mulheres, que já disseram adeus para sempre aos objetos da sua afeição, só possam chorar de miséria e infortúnio sobre os destroços das cabanas que os vossos antepassados vos tinham deixado?
E vós, soldados portugueses, não tendes também a vossa parte nas humilhações em que eles mergulham os vossos compatriotas? Que desonroso labéu eles lançaram sobre os vossos batalhões ao dar-vos chefes, como se entre vós não houvesse oficiais dignos de comandar-vos! Portugueses! Voltai para as vossas casa. Os exércitos do grande Napoleão estão cá para fazer que sejais respeitados e para defender as vossas pessoas, as vossas propriedades, as vossas famílias e os vossos direitos. Recebei-os como amigos.

O oiro da Grã-Bretanha pretende apenas governar-vos, à sombra da influência inglesa em benefício dos seus próprios interesses e não para o bem do vosso país. São tão vossos inimigos como aqueles de quem são agentes.

A música acaba. Entra o GENERAL.

GENERAL: Que fazeis, meu Marechal?

MASSENA: Nunca missão mais bela fora confiada à coragem dos franceses: tenho de vencer ao mesmo tempo os ingleses, pelas armas, e os portugueses, pela persuasão e pela moderação. Mandai as tropas desmobilizarem e acamparem por estas terras. Recomendo, expressamente, a todos os chefes de corpo que forrageiem e poupem os recursos desta região. Os ingleses não tiveram tempo para devastar.

O GENERAL dá comandos às tropas. Todos os elementos do militares/público estarão a fazer parte deste momento. A frente sala e/ou os figurantes terão já transmitido as noções básicas de movimentos necessários para esta ação, durante o acolhimento. No fim, o GENERAL manda desmobilizar, e os soldados, uns entram nas tendas, outros descansam no chão e outros preparam-se para fazerem saques.

MASSENA: E nós, concentremo-nos nas nossas opções.

GENERAL: Se é que elas existem.

MASSENA: Que quereis dizer com isso? Este revés no início da campanha surpreendeu- nos, mas não nos abalou a coragem!

GENERAL: Mas abalou-nos as possibilidades de sucesso.

SR. LEBRE: E abalou, certamente, a força numérica que de fama se enchiam.

SRA. LEBRE: Para além de que, parece-me, fez crescer os germes de divisão entre o general comandante em chefe e os seus tenentes.

MASSENA: Como podeis dizer tal coisa? Ainda temos muito para cavalgar e lhe garanto, Wellington ainda terá muito chão para beijar.
(Pausa.) Pense assim, pelo menos, conseguimos despistar as tropas de lord Wellington.

GENERAL: Deixámos que o adversário meditasse à sua vontade sobre os possíveis frutos da vitória que obtivera.

MASSENA: Agora que está com toda a imperialidade e se julga dono da vitória, cometerá qualquer engano sem dar por isso e será aí, exatamente aí, que contra- atacaremos e acabaremos com o Leopardo!

SR. LEBRE: Esperemos que ao invés, o Leopardo arreganhe os dentes ao filho querido da derrota!

GENERAL: Mas meu Marechal, é imperativo termos uma ação rápido e afortunada brevemente. Porque não seguirmos novamente para a Ciudad Rodrigo e Almeida?

MASSENA: Não brinque comigo! Depois dos cercos de Ciudad Rodrigo e Almeida, que faremos nós em voltar para trás, depois de toda a inércia do inimigo?

SRA. LEBRE: Os cercos de Ciudad Rodrigo e Almeida parecem ter sido militarmente inúteis. A ação bélica napoleónica que fascina a Europa funda-se na rapidez e na ousadia. Mas este cerco foi, pelo contrário, uma campanha lenta e previsível. A força invasora e ofensiva avançou sem ganhos e a força defensiva manteve-se em observação.

MASSENA: Manteremos a marcha até ao nosso objetivo – Lisboa. Os terrenos daqui para a frente são favoráveis e estou certo de que teremos despistado suficientemente as tropas de Wellington. Ou talvez melhor, bateremos as tropas do inimigo em Coimbra, onde o terreno nos coloca em igualdade e com todas as forças reunidas, poderemos dar- lhe batalha com grande probabilidade de êxito.

GENERAL: As nossas tropas estão esgotadas, não terão força para batalhar novamente em Coimbra. Esperemos pelo comando do nosso Imperador, ele saberá qual a melhor estratégia a adotar. Enquanto isso, descansemos por aqui.

MASSENA: (Ignorando o GENERAL.) Sim, há esperança de batalha junto de Coimbra. SRA. LEBRE: Parece-me que Massena está enganado no seu plano e não conhece o nosso país.

SR. LEBRE: Também as ordens de Napoleão, aliás, parecem ser fundadas na ignorância sobre os nossos territórios, onde se movem, porém, os seus exércitos.

SRA. LEBRE: Uma arrogância militar napoleónica. Ele parece impor desprezo pelos obstáculos naturais.

MASSENA: (Dirigindo-se ao GENERAL, que parece nervoso.) Respirai fundo, meu caro companheiro. Esta noite seremos fartos, do melhor beberemos e comeremos, porque amanhã, estaremos a caminho de mais uma vitória.

GENERAL: Mais uma vitória? Meu marechal, não me pareceu uma vitória, no Bussaco. Os inconvenientes de uma derrota não podem ser comparados com as vantagens de uma vitória.

MASSENA: Poupe-me aos seus discursos negativos. Nada me abalará a confiança. Como disse o Imperador, eu sou o “homem das situações difíceis, dos casos desesperados”. E sabe porquê? Porque resolvo-os sempre com o maior sucesso. Sairemos vitoriosos, estou certo disso! Não perderei esta oportunidade de flanquear o exército inimigo.

GENERAL: Regressemos a Viseu, para depois marchar contra o Porto, ou voltemos para trás de Águeda, ficando sob a proteção de Almeida e de Ciudad Rodrigo até que o Imperador ponha ao vosso dispor um exército suficientemente forte para a conquista de Portugal.

MASSENA: O Imperador ordenou-nos que marchássemos contra Lisboa e não contra o Porto, e tinha razão: a conquista de Lisboa porá fim à luta; a do Porto apenas a prolongará sem a nada pôr fim.

GENERAL: E se Lord Wellington não estiver a contar surpreender-nos em Coimbra? Se estiver já em marcha na direção de Lisboa?

MASSENA: E arriscar-se deixar Coimbra indefesa?

GENERAL: Já o fez anteriormente.

MASSENA: Mas isso seria ainda melhor! Se ele marcha já para fora de Coimbra, deixará tudo para nós! Não há mais dúvidas! Marchemos para Coimbra. Se formos rápidos, Coimbra será um precioso recurso para o nosso exército, por terem os ingleses lá instalado grandes depósitos. Se lhes faltar o tempo necessário para evacuarem ou destruírem esses depósitos, com o objetivo de seguirem em direção a Lisboa, poderemos ter recursos para sustentar o nosso exército por mais de 15 dias.

GENERAL: Isso seria um alívio, pois eis que temos já esgotada toda a provisão de biscoitos.

MASSENA: É o que faremos, meu caro. Mas recomendo, no entanto, a mais rigorosa disciplina aos corpos das tropas que entrem em primeiro lugar em Coimbra. Ordeno que se proíba a entrada nesses depósitos aos militares de todos os graus, e responsabilizo pessoalmente o comandante da praça pelo cumprimento dessa disposição.

GENERAL: Darei parte disso, meu Marechal.

Olham-se nos olhos frente a frente, com ar vitorioso. Entra o CRIADO.

CRIADO: Meus senhores, uma boa mesa vos espera.

MASSENA: Chamai os restantes generais para que se juntem a nós, numa boa ceia. Os generais saem e o casal também.

Cena III

Os figurantes/frente sala reúnem o grupo de criados do público, dão-lhes as indicações para execução das suas tarefas. Também os generais são chamados e colocados no devido lugar. Enquanto isso, o casal, MASSENA e o GENERAL, sentam-se à mesa. Tendo os generais saído de perto das tropas, os soldados aproveitam para começar o saque, tentando roubar tudo o que o público tem à mão, pedindo por comida, etc.. Há uma grande confusão - nesta ação, as tropas invadirão a zona de público, por forma a “roubar” todos os pertences do público (objetos escondidos entre o público) - simbolicamente, o público será o povo da Mealhada. A SRA. LEBRE apercebe-se da confusão.

SRA. LEBRE: (Juntando-se à mesa.) Caro Marechal, queira, por favor, ter a amabilidade de dizer às suas tropas que não castiguem as nossas gentes que já pouco ou nada têm para se sustentarem. Nós daremos o que de necessário for para a sobrevivência dos vossos soldados.

MASSENA: (Olhando para o GENERAL.) Dai parte disso. Dizei-lhes que estejam sossegados, que nesta terra não lhes faltará sustento.

O GENERAL levanta-se e dirige-se aos soldados, mandando-os parar. Volta para a mesa. Senta-se. Silêncio. A SRA. LEBRE olha, dando sinal ao marido para que intervenha.

SR. LEBRE: Quereis vinho para beber?

GENERAL: Pois sim! E mandai, mais tarde, servir um pouco aos soldados que nos acompanham.

Um dos criados serve o vinho.

SR. LEBRE: Com certeza! Silêncio.

SRA. LEBRE: Já terão dado conta dos infortúnios do vosso exército? Foram muitas, as baixas?

GENERAL: Não falemos de guerra e estratégia em frente à senhora, não são assuntos próprios para os seus ouvidos frágeis. (MASSENA ri-se ironicamente.)

MASSENA: Entre mortos, feridos e aprisionados, elevam-se a 4486 homens, incluindo 225 oficiais.

GENERAL: Generais e chefes de corpo, todos pagaram o seu tributo pessoal.

SR. LEBRE: Um número tão estrondoso e para quê? Para servir à boca de inúteis!

SRA. LEBRE: (Tentando disfarçar.) Saberão, certamente, como dar os próximos passos para compensar tamanhas perdas.

MASSENA: Certamente que sim.

GENERAL 1: (Voz-off.) Ou certamente que não! Se o Marechal demonstrar o mesmo engenho que no Bussaco, ficaremos todos enterrados por estas terras.

MASSENA: Fala do meu engenho, general? Que tal falar antes da sua falta de ação? A sua divisão, Marchand, devia ter entrado em ação ao mesmo tempo que a de Loison e só chegou à Cartuxa muito mais tarde. Um erro que nos custou caro.

GENERAL 2: (Voz-off.) Não foi só o atraso do general Marchand que afetou a nossa posição.

MASSENA: Pois não, meu caro Loison. O seu movimento infeliz na retirada das tropas, deixando a descoberto o flanco direito da coluna, foi crasso. E para piorar, a decisão de Marchand de descair para a esquerda com fim de entrar num pinhal, foi ridícula.

GENERAL 3: (Voz-off.) Ele apenas pensava ir encontrar abrigo.

MASSENA: Mas esse movimento saiu-lhe caro! A grande maioria dos oficiais superiores ficou fora de combate. Três descargas de 15 passos de distância remataram a confusão e o morticínio na massa dos soldados, que voltaram em desordem ao ponto de partida.

GENERAL 3: (Voz-off.) Lamento que assim seja, Marechal.

MASSENA: Sabe o que é que eu lamento? Lamento o seu pouco empenho, duque de Elchingen, na execução das minhas ordens, a falta de coesão dos seus ataques e a má direção por si imprimida ao General Marchand.

GENERAL 3: (Voz-off.) Garanto-lhe que fiz o melhor que podia e agi até aos limites do possível!

MASSENA: Ah! Os seus limites são míseros, duque.

GENERAL 2: (Voz-off.) Meu Marechal, se tivéssemos entrado na mata mais cedo, tudo teria sido diferente. O facto de o meu Marechal ter feito o reconhecimento, fê-lo hesitar em atacar os ingleses e essa demora foi, infelizmente, fatal.

GENERAL: De facto, se as nossas colunas tivessem chegado junto do inimigo às oito da manhã, não teria, provavelmente, havido batalha: nessa altura Lord Wellington só tinha ali perto 25 000 homens, e só pudera formar na crista dos montes uma débil cortina; ter- nos-ia, decerto, cedido o terreno, e o efeito dessa retirada valeria por uma vitória; mas aproveitou o tempo que nós tínhamos perdido, fazendo passar para a margem direita do Mondego todas as suas tropas.

MASSENA: Disso não posso discordar. Ah! Mas porque é que eu não ataquei na véspera...!?

GENERAL: Lamento vivamente que o não tenha feita, mas agora já não se pode pensar nisso.

SRA. LEBRE: Imagino que o Marechal Massena tenha sido mal informado e teve por isso maiores dificuldades em fazer os seus movimentos, do que esperava.

GENERAL 1: (Voz-off.) Se a 26 de manhã todo o exército estivesse pronto para combater, a posição teria, evidentemente, sido forçada, porque metade do exército de Wellington não é, de nenhum modo, bastante forte para nos resistir.

MASSENA: Alguns dos meus melhores oficiais do estado-maior garantiram-me que a Cartuxa do Bussaco era acessível pelo vale das duas aldeias de Moira: decidi-me, portanto, a atacar. Eu sei, no entanto, o erro que cometi e não persisti nele.

GENERAL: Mas meu Marechal, porque não continuámos a subir pela Serra? Quando estivéssemos em campo aberto, seria mais fácil debilitar o inimigo. Porque recuou?

MASSENA: A sorte nos era já contrária. A natureza do campo de batalha impedira-me de assumir direção dos ataques. Era-me impossível abarcar o conjunto dos movimentos; não podendo ver tudo por mim próprio, era, portanto, obrigado a basear as minhas novas disposições nos relatórios que me chegavam. Esta desagradável circunstância não me permitiu dar aos ataques do duque de Elchingen e de Reynier a coesão de conjunto que poderia ter garantido o êxito.

SRA. LEBRE: A inclinação da escarpa é tão forte que um homem isolado e sem trouxa teria dificuldade em escalá-la.

GENERAL: E no entanto, na crista do monte, só estava a brigada de Pack. Em circunstâncias diferentes, essas tropas não resistiriam por muito tempo à nossa valente divisão.

MASSENA: Mas que poderia fazer perante aquela escarpa da qual choviam incessantemente tiros sobre as frentes das nossas colunas? A experiência proibiu-me de insistir num ataque que já não tinha possibilidade de êxito, por isso não quis envolver nele as nossas reservas. As nossas perdas eram consideráveis.

SRA. LEBRE: Além disso, suponho que o marechal apenas obedecia às instruções do Imperador. Não me parece oportuno que a sua reputação sofra por isso. Foi sábio ao sacrificar a sua impaciência à necessidade de garantir a sua base de operações e de constituir os seus serviços administrativos.

MASSENA: Um brinde a si, Excelentíssima Senhora! (Levanta o copo.)

A SRA. LEBRE, orgulhosa, imponente e traiçoeira, levanta-se, com o copo em punho, olha para o marido e responde com um “à sua saúde”. Brindam. Bebem. Silêncio.

GENERAL: O problema veio de trás. O problema maior foi a demora em Viseu.

MASSENA: O que queria que tivesse feito de diferente em Viseu?

GENERAL: (Inquieto e tentando puxar as atenções para o que lhe interessa.) A lentidão do movimento para Viseu deu tempo a que Lord Wellington chamasse o general Hill para o Alva e reunisse o corpo de tropas de Leith.

SRA. LEBRE: (Ainda de pé. Sentando-se.) E essa lentidão não é suficientemente justificada pelo estado dos caminhos?

GENERAL 3: (Voz-off.) Então porque não saiu o marechal por Celorico, avançando pela margem esquerda do Mondego? O trajeto era mais direto e mais fácil.

MASSENA: (Frio e mantendo a calma, mas ficando já com pouca paciência.) Porque a nossa marcha para Viseu deixou Lord Wellington na dúvida, obrigando-o a manter no Vouga as tropas portuguesas às ordens do marechal Beresford. Lançar-se para a margem esquerda do Mondego era revelar o plano da campanha e livrar o inimigo de toda a inquietação acerca da sorte da segunda cidade de Portugal.

Silêncio.

GENERAL: Podíamos ter voltado a atacar. Quando já não se esperava, entrávamos pela calada e surpreendíamos o inimigo. Mas em vez disso, meu Marechal, preferiu fugir.

SRA. LEBRE: Fugir? Poupou a sua reserva e conservou uma tal atitude que Lord Wellington, alerta, receou novo ataque no dia seguinte. Que general conservaria, nas mesmas circunstâncias e depois de tão grave revés, suficiente calma e energia para avaliar friamente a sua posição e livrar-se das dificuldades sem novos sacrifícios? Não, não: Massena não foi inferior a si próprio! Além disso, qual é o hábil jogador que nunca perdeu uma partida?

MASSENA levanta-se. Pega no copo e bebe até à última gota. Poisa o copo na mesa com tal frieza que todos os que se encontravam à mesa, bem como os criados, estremecem, à exceção da SRA. LEBRE.

MASSENA: Deixemos o passado: pensemos no presente. Uma boa noite, minha senhora... e meu senhor!

MASSENA sai. Atrás dele, sai o GENERAL. Os restantes generais são levados para os seus lugares, no público. Os criados igualmente. Fica apenas o SR. LEBRE, já de pé, e a SRA. LEBRE, igualmente.

SRA. LEBRE: O Marechal, até então tratado pela fortuna como seu filho dileto, julgou poder contar com ela ainda mais uma vez. Mas desta vez, a fortuna estava do nosso lado.

SR. LEBRE: Que Wellington faça nascer o nosso triunfo e os escorrace, cedo ou tarde, das nossas terras.

SRA. LEBRE: Que Portugal volte para nós, em paz! O casal entra na casa. As luzes da casa diminuem.

CENA IV

As luzes de público aumentam. Encontram-se três soldados, com garrafas de vinho na mão. Talvez as mesmas que os criados distribuíram anteriormente.

SOLDADO 1: Segundo percebi, a ordem para amanhã, é de marchar para Coimbra. SOLDADO 2: Então tomemos Coimbra de assalto...

SOLDADO 3: Sim, nada respeitaremos. Que fiquem os ingleses sem provisões para verem o que custa.

SOLDADO 2: Isso, isso... E os depósitos, militares ou particulares, que sejam saqueados. Os recursos não ficarão por lá esquecidos, serão nossos, desta vez.

SOLDADO 1: Mas ainda teremos que nos aguentar esta noite.

SOLDADO 3: Prometeu o nosso general que seríamos bem tratados aqui, pelas terras da Mealhada. Mas às nossas bocas, chega um biscoito que nem na cova de um dente cabe. SOLDADO 1: Ficaram eles com tudo. E nós, dormimos ao relento e sem sustento.

SOLDADO 2: Pois então, vejamos o que tem para nos oferecer esta bela Mealhada. SOLDADO 3: Uma boa capela, parece-me um bom sítio para dormir.

SOLDADO 2: Ou para saquear...

Os soldados riem e vão em direção à Capela de Sant’Ana.

Cena final Créditos

NO PAPEL DE SOLDADOS FRANCESES - VITOR MONTEIRO, NUNO MARQUES E NUNO GONÇALVES:
Dois dos soldados dirigem-se em direção à Capela de Sant’Ana.

SOLDADO 1: Onde é que vocês vão?

SOLDADO 2: Está além uma capela.

SOLDADO 3: Anda, vem ver o que lá tem.

SOLDADO 2: Muito ouro, de certeza...

SOLDADO 3: Ou a nossa senhora para nos guardar durante a noite... Riem e seguem caminho.

SOLDADO 1: Fica muito longe, estou demasiado cansado, ide vós. Eu fico aqui num qualquer canto.

Os SOLDADOS 2 e 3 desaparecem de vista, na direção da capela e o soldado 1, deita-se à porta da casa dos lebre.

NO PAPEL DE CRIADO - O CRIADO entra, apercebe-se do soldado à porta. Enxota-o. O SOLDADO levanta-se e vai para dentro de uma das tendas.

CRIADO: Estes malandros dos franceses, vêm para uma casa que não é deles, mas tomam-na como se fosse. Cospe para o chão da rua, como se estivesse a cuspir para os franceses.

No fim, apaga as luzes todas, deixando ficar apenas as de dentro de casa.

NO PAPEL DE MASSENA – RUBEN DIAS E NO PAPEL DE GENERAL - JOÃO TARRAFA:

MASSENA:
GENERAL: Esperemos que ao afogar o Leopardo, não nos afogue a nós todos também.
Enfim, Coimbra que nos espere.

NA FLAUTA TRANSVERSAL E NA HARPA - DAVID LEÃO: Toca um pequeno trecho musical que acompanhará a cena seguinte.

NO PAPEL DE SR. LEBRE – NUNO CANILHO e NO PAPEL DE SRA. LEBRE – FILIPA ALMEIDA:

O casal vem à janela (ou varanda). Fala para o público.

SR. LEBRE: Meu bom povo. Hoje, fomos obrigados a receber na nossa casa, o nosso inimigo. Um inimigo que a nada, nem ninguém poupa.

SRA. LEBRE: E não se acanhem com as conversas fiadas do Marechal. Certo é que não nos é favorável, a nós, os do povo, a ação e estratégia de Wellington, que muitas vezes destrói o nosso seio, mais do que as próprias forças inimigas. Não contrariamos essa verdade. Mas não serão estas tropas, que hoje invadem a nossa terra, as que nos tomarão por aliados, isso é certo.

SR. LEBRE: E garanto-vos, concordemos ou não com a estratégia de Wellington, não são os Britânicos que entram no nosso País com intenções de nos roubar o poder e de nos governarem, afundando todo e qualquer sangue Real Português.

SRA. LEBRE: E seja a uns, seja a outros, é nosso dever mantermos a cabeça erguida e seguir acreditando que melhores dias virão.

(Pausa.)

A vós, não deixará a nossa casa faltar-vos sustento. De tudo faremos para repelir os invasores, sem prejudicar as nossas casas, as nossas gentes. Acreditai na luz de um amanhã melhor.

E NO PAPEL DE POVO, CRIADOS e SERVIÇAIS, GENERAIS, SOLDADOS – O NOSSO ESTIMADO PÚBLICO.