GUIÃO | EPISÓDIO 5


Personagens

ANA - MARTA PIRES
MULHER DO POVO - FILIPA ALMEIDA
MARIA DIREITA DA VACARIÇA, elemento do povo - ANA SOARES (AM) ISABEL DUARTE DA PÓVOA DA MEALHADA, elemento do povo - NOÉMIA
LOPES MACHADO (OTC)
PEREIRA DA MAIA DA MEALHADA, elemento do povo - MARIA DA CONCEIÇÃO ROSMANINHO (CADES)
HOMENS, MULHERES e CRIANÇAS DO POVO - JOSÉ MACHADO LOPES (OTC) | NOÉMIA MACHADO LOPES (OTC) | ANA PEREIRA | FÁTIMA (?) (CADES) | SARA ESTIBEIRA (AQUILES) | CARLA SANTOS (AQUILES) | CONCEIÇÃO FEBRA (GREHC) | GLÓRIA SIMÕES (GREHC) | LEONARDO FAJARDO | SANTIAGO FAJARDO | LUNA (?) |
SOLDADOS PORTUGUESES - CARLOS SIMÕES (GREHC) | RUI FONSECA (AH) | FRANCISCO ROBALO (AM)
SOLDADOS FRANCESES - NUNO MARQUES (AQUILES) | NUNO GONÇALVES (AQUILES) | VÍTOR MONTEIRO (AQUILES) | CLÁUDIO MONTEIRO (AQUILES) | RODRIGO OLIVEIRA | PEDRO SEMEDO (OTC)
1o VIOLINO - RITA SANTOS
2o VIOLINO - LOURENÇO RIBEIRO
VIOLA D’ARCO - BÁRBARA BERNARDINO VIOLONCELO - SANDRO MARKONDES


Acampamento montado nos jardins da quinta: enfermaria, quartos. À medida que o público vai entrando, pessoas vão chegando ao acampamento, chegam homens feridos, cuidadoras, observa-se trocas de comidas e necessidades básicas por objetos valiosos entre os sobreviventes - ideia de “cidade viva”. Depois do público estar sentado, ouve- se som de tiros ao longe, surge a voz-off inicial e o quarteto de cordas toca uma melodia. Ainda se ouvem sons de fogo e homens a berrar ao longe. Há um ambiente de tensão entre estas pessoas.

Cena I

ANA vem fora de cena com um cesto com comida, senta-se num tronco perto de uma fogueira. Quando ANA já está sentada, os figurantes entram dentro das tendas ou vão para trás (perto do edifício), ficando apenas ANA em cena. O quarteto silencia. Surge a MULHER DO POVO de dentro de uma tenda e repara em ANA, senta-se com ela.

MULHER DO POVO: Menina Ana... como está? ANA: Estou bem, muito obrigada. E vocemessê?

MULHER DO POVO: Agora, mais calma. Chegaram dois soldados portugueses feridos.

ANA: O meu homem...?

MULHER DO POVO: Não... Mas bom, já tratámos deles, agora estão a descansar. Não consigo fazer mais nada para acalmar as suas dores. Se ao menos a menina Teresa estivesse connosco, tem mais experiência, saberia o que fazer.

ANA: Ela certamente está a ser mais precisa lá para cima, para a Serra.

MULHER DO POVO: Tem razão. Os soldados chegam tão feridos, tão magoados... questiono-me porquê? Para quê tudo isto? Esta brutalidade... (Pausa.) Mas bom. A menina Ana não me parece bem, como diz.

ANA: Sinto-me cansada. Cada dia que passa a esperança diminui. A esperança de que isto vai acabar em breve, a esperança de que a minha família voltará a estar junta novamente... Sempre que chegam soldados feridos rezo para que o meu homem não esteja no meio deles. Por outro lado, não vejo a hora de o ver chegar até mim. A notícia que me deu tanto me encheu de esperança como de terror.

MULHER DO POVO: O facto de não terem encontrado o seu homem no meio dos mortos e feridos, nem no meio das tropas que seguiram caminho, pode ser bom, Ana. Tem de ter esperança!

ANA: As saudades são tantas, menina. O que será de mim? O que será de nós, da nossa família, dos nossos filhos? Não tenho capacidade para cuidar das nossas duas crianças sem ele.

MULHER DO POVO: Em breve, o seu homem estará a aparecer por aqui... bem, de saúde e cheio de força para vos abraçar a todos. As tropas já acalmaram. Acredito piamente que o fim desta batalha estará para breve... que os nossos homens, as nossas pessoas, voltarão para casa. Salvos. Avizinham-se tempos difíceis nesta recuperação, mas os tempos estão a mudar... Já não se sente tanta raiva, tanta revolta... Esta é a nossa batalha. Pense nos seus filhos, precisam de si, da sua força. Olhe para eles... vão sobreviver a uma das maiores batalhas que o nosso povo enfrentou. São filhos de guerreiro e guerreiros serão.

ANA: É tudo tão injusto, menina. Nós não merecemos isto. A nossa terra não merece isto, as nossas casas, as nossas famílias, os nossos filhos... Roubaram os nossos homens, a nossa dignidade. Mulheres abandonadas, com as crianças ao colo, sem comida, sem sustento... O que resta de nós?

MULHER DO POVO: Ana, não está sozinha. Estarei sempre aqui a dar o meu contributo e a minha ajuda.

ANA: O nosso Bussaco está a ser um dos cenários das maiores chacinas que se pode imaginar. Quantas povoações varejadas pela artilharia estão a ficar desfeitas em cinza?! Quantos agonizam lentamente, desfalecendo à míngua por entre os matos e penedias despojados de tudo?! O nosso povo sofre na carne a loucura de um homem cuja imaginação exaltada ficava tão fora de limites quanto a sua ambição. O nosso povo não merecia tamanha emboscada, tamanha batalha.

MULHER DO POVO: Mas somos um povo de sangue quente, um povo portador de tamanha resistência e resiliência, um povo unido capaz de enfrentar qualquer derrota, transformando-a na maior vitória. Somos portugueses e isso basta-nos!

ANA: Que Deus a ouça e tenha compaixão! Neste momento, não me resta outra coisa senão rezar, rezar por todos nós.

MULHER DO POVO: Cada um de nós faz a batalha da forma que consegue, enquanto pudermos rezar e louvar aos céus, pedir clemência e ter fé, acredite que batalhamos com todas as nossas armas.

O quarteto toca.

ANA: Na verdade, já nem rezar nos deixam, menina. Imagine só, ouvi contar que despedaçaram Sta Isabel. Roubaram todas as roupas brancas de linho que conseguiram, o dinheiro... na casa do senhor, na casa do senhor! Roubaram comida, galinhas, porcos. Mataram e abusaram das mulheres, crianças, idosos... Incendiaram casas, fizeram os maiores estragos destruindo a nossa cultura, queimando casas e fazendo os maiores sacrilégios. Estamos a ser sacrificados! As nossas povoações estão a ficar desertas, os nossos habitantes voltam às suas casas, destruídas, os seus campos, o seu sustento, devastados. Voltam na esperança de que tudo isto não tenha passado de um pesadelo. A vida, neste momento, apresenta-se impossível! Nada pode substituir as marcas que estes monstros nos deixam. Deus queira que daqui a muitos e longos anos, quando a ideia destas batalhas não passarem de meras lembranças, quem dera, que façam juz à nossa dignidade e à nossa resiliência. Que não se esqueçam de todos aqueles que lutaram.

MULHER DO POVO: Temos de acreditar que tudo isto ficará para a história. A nossa história, o nosso povo. Vamos ser lembrados como verdadeiros lutadores. Venha, vamos para dentro, menina Ana. Está a ficar tarde e precisamos de descansar!

A MULHER DO POVO entra para uma tenda. A música acaba.

Cena II

ANA, quando vai para entrar para a tenda, ouve alguém chamar por ela. Mudança de ambiente, ideia de tempo suspenso/sonho. O quarteto toca.

ANA: Meu homem! (Corre para o abraçar. Interrompe-se. Pausa.) O que é feito de ti? Porque não vieste mais cedo? Pensei que te tinham feito mal, que te tinham magoado, que tinhas morrido... Imagino que as coisas não estejam a ser nada fáceis, mas os nossos filhos precisam de ti. Eu preciso de ti... ainda bem que voltaste. Contigo tudo será mais fácil... Onde vais? A qualquer momento vamos ter de fugir. O meu medo era que não te conseguisse encontrar a tempo, para fugires conosco. Não podes voltar a ir embora, não podes.

Ouve-se o som de tiros e explosões bem próximas, flash de luz, o quarteto acompanha a reviravolta. ANA assusta-se com o som.

Cena III

Entra um HOMEM DO POVO a gritar, do lado de fora do acampamento. ANA fica muito confusa.

HOMEM DO POVO: Fujam! Os franceses vêm aí!

POPULAÇÃO: Ajudem! Fujam! Acudam!

O povo pega em todos os pertences que consegue, nos filhos, nos alimentos... As pessoas correm, gritam, há muita confusão. As tropas francesas invadem o espaço. Matam homens e mulheres. ANA é levada para dentro de uma tenda por um soldado francês. Rasgam a boca de MARIA DIREITA até ao pescoço; assassinam ISABEL DUARTE com golpes de traçado; matam a tiro PEREIRA DA MAIA e cortam-lhe as mãos.

O quarteto troca de música: é agora o “Hino das Invasões Francesas”. Os soldados franceses, satisfeitos, saem da quinta.
As três mulheres assassinadas surgem em estrados elevados. ANA sai de dentro da tenda com as mãos sujas de sangue e desloca-se até ao centro, virada para o público.

ANA: Não, a mão do Senhor não é curta para salvar, nem o seu ouvido demasiado surdo para ouvir.

CORO: Foram os vossos pecados que cavaram um abismo entre vós e o vosso Deus. Os vossos pecados fizeram-no esconder a sua face para não vos ouvir.

ANA: Com efeito, as vossas mãos estão manchadas de sangue, os vossos dedos de iniquidades; os vossos lábios dizem mentiras, a vossa língua profere maldades. Não há quem clame pela justiça.

CORO: ninguém julga conforme a verdade. Apoiam-se na mentira, afirmam a falsidade, concebem a intriga e geram o crime. Incubam ovos de áspide, e tecem teias de aranhas; o que comer desses ovos, morre, se se cascam, saem víboras.

ANA: As suas teias não servem para a roupa, não se podem cobrir com o que tecem.

CORO: Fazem obras infamantes.

ANA: ...entregam-se a atos de violência.

CORO: Os seus pés correm para fazer o mal, apressam-se em derramar o sangue inocente.

ANA: Meditam projetos malignos; à sua passagem deixam o estrago e a ruína. Não conhecem o caminho da paz, seguem veredas tortuosas, todo o que passa por elas, ignora a paz. Por causa disto se afastou de vós o direito, e não vos alcança a justiça; esperamos a luz e não vemos senão trevas; aguardamos o dia e andamos às escuras. Vamos como cegos apalpando as paredes caminhando às apalpadelas como os que não têm olhos. Em pleno dia, tropeçamos como no crepúsculo, e mergulhamos nas trevas como mortos. Esperamos a justiça, mas não aparece; a salvação, e ela está longe de nós.

A MULHER DO POVO sai de uma tenda e corre para ANA.

MULHER: Ana, o que aconteceu? O que é que fez?

ANA: Eu não sei... Eu fui atacada. Só me defendi. (Pausa.) Quero ver os meus filhos.

MULHER: (Abraçando-a.) Venha. Vamos tratar de si !

ANA: (Olhando em volta.) Mas vamos para onde? Ficou tudo destruído, não temos para onde ir...

A luz desvanece até ao blackout, ficando as duas mulheres paradas, a contemplar o cenário de destruição.