GUIÃO | EPISÓDIO 4


Personagens

FRADE FREI JOSÉ DE SÃO SILVESTRE - PEDRO GAMA
PADRE - NUNO MARQUES (AQUILES)
PAISANO - RODRIGO OLIVEIRA
SOLDADO INGLÊS e CAPITÃO INGLÊS - ANTÓNIO RAMOS (GREHC) SOLDADO PORTUGUÊS - CARLOS FEBRA (GREHC)
SOLDADO FRANCÊS 1 - VÍTOR MONTEIRO (AQUILES) SOLDADO FRANCÊS 2 - FRANCISCO ROBALO (AM) OFICIAL INGLÊS - NUNO MESQUITA
POPULAR - PEDRO SEMEDO (OTC)
TENENTE INGLÊS - LUÍS COSTA (GREHC) MOÇO - RUI BAPTISTA
OFICIAL 1 - CLÁUDIO MONTEIRO (AQUILES) OFICIAL 2 - PAULO SANTOS (AQUILES) OFICIAL 3 - SÉRGIO CARVALHO (AQUILES) OFICIAL 4 - NUNO GONÇALVES (AQUILES) CLÉRIGO - JORGE JESUS (AQUILES)
VÁRIOS SOLDADOS VULTOS

Cena I

Música. Uma luz ténue incide sobre FREI JOSÉ DE SÃO SILVESTRE, que se encontra sentado, a escrever no seu diário. Ao longe, ouve-se pequenas, leves e efémeras batidas de tambor.

FREI: Dia 27. Hoje levantou-se o general muito cedo. Mandou logo sair as suas bagagens para fora da mata. (Num prenúncio de suspense e ansiedade, as batidas vão aumentando de intensidade, tal como a postura do FREI vai ficando cada vez mais pesada.) Durou o fogo de parte a parte com grande efeito e atividade até às 4 horas da tarde.
Depois de uma batida mais forte e uníssona, o FREI olha para o horizonte. Silêncio. Fecha o diário. Em silêncio reza em confissão.
Entra o PADRE. Luz amplia até à entrada de cena, o arco das portas de sula.

PADRE: Frade, saímos para ver o fogo?

O FREI faz o sinal da cruz e levanta-se, juntando-se ao PADRE. Ao saírem, dão de caras com um paisano que vem a chorar.

FREI: O que tem?

PAISANO: (Desenfreado e sem conseguir articular as palavras.) Pois não vê aquilo?

FREI: O quê?

PAISANO: Aqueles Franceses feridos que ali estão.

A luz abre para a lateral esquerda e do cimo da colina, vêem-se 2 franceses a deslocarem- se, um a ajudar o outro. Os dois feridos, um deles, segundo descrição, tem “o rosto atravessado de um para outro lado com uma bala, a qual passou por entre os queixos: o sangue saía-lhe pela boca e tinha já uma grande porção dele coalhado pendente nos beiços”. Este não consegue sequer falar. Os soldados tremem de frio. O FREI olha com tristeza.

PADRE: Meu amigo, que triste é assistir a este cenário.

FREI: Estão de tão miserável forma que sem querer me principiam a correr as lágrimas.

Vê-se um inglês e um português que acendem uma fogueira, o inglês levanta-se e vai ajudar os soldados franceses a deslocarem-se para junto da fogueira.

PADRE: Vamos ver se conseguimos ver o fogo do alto da mata.


Cena II

Juntos, o FREI e o PADRE seguem pelo caminho que dá para dentro da mata. Junto à fogueira, os soldados confraternizam. A luz fica apenas a incidir sobre este espaço.

SOLDADO INGLÊS: Ao passar junto do convento, ouvimos que se encontra prisioneiro um general francês chamado Simon. Está ferido com três balas, todas na face direita.

SOLDADO PORTUGUÊS: Sabemos que vinha com ele um capitão que serve de seu secretário, mas esse, não está ferido.

SOLDADO FRANCÊS 1: Irão executá-lo, certamente.

SOLDADO PORTUGUÊS: Não, dizem que Lord Wellington mandou tratá-lo com toda a honra e humanidade.

SOLDADO INGLÊS: E que um oficial inglês lhe deu o seu quarto.

SOLDADO PORTUGUÊS: Até mandaram ir-se-lhe buscar as bagagens e tudo. E diz- se que Massena remeteu-lhas prontamente.

SOLDADO INGLÊS: Ah! E veio também a sua mulher.

SOLDADO FRANCÊS 1: Que venha a ele sua sorte para que sobreviva e seja mandado de volta para França. Já nós, dificilmente teremos essa mesma sorte. Ficaremos perdidos nestas terras, seja em cadáver ou em vida.

SOLDADO PORTUGUÊS: O prelado mandou benzer um pedaço de terra em o olival para se enterrarem lá os feridos que vão morrendo.
Faz-se silêncio. Todos olham para a fogueira com olhares vazios e taciturnos. Ao longe ouve-se o som de disparos e de fogo. A luz vai diminuindo. Pausa. A luz acende à entrada de cena e expande para toda a horizontal junto dos muros.

SOLDADO INGLÊS: (Colocando-se a pé, faz sinal a um dos que vem a cavalo. Apontando para o soldado português que parece entretanto ter desmaiado.) Aqui, há mais feridos aqui.

O oficial que se junta, apoia o soldado português ferido, colocando-o deitado em cima do cavalo.

FREI: Para onde levais o ferido?

SOLDADO INGLÊS: (Dirigindo-se a Frei que se encontra no centro de cena.) Para a Capela das Almas, é lá que estão a ser tratados.

FREI: Bendito sejais! Irei para a Capela ajudar.

SOLDADO INGLÊS: Vá pois, frade, mas primeiro, cuide destes feridos. (Referindo-se aos franceses que ficam junto à fogueira.) Dai-lhes água que bem precisam e livre-os dos paisanos que não fazem mais nada senão roubar e matar.

SOLDADO PORTUGUÊS: E trate de mandar buscar uns poucos que ainda se encontram na serra desamparados.

FREI: Assim farei. Ide em paz!

Cena III

Os soldados que se encontravam em cena saem, menos os franceses. O FREI, ao ir ao encontro dos soldados franceses, encontra um homem pelo caminho.

FREI: Bom dia, senhor! Cuida de me seguir a ajudar os feridos? POPULAR: Sigo, que aqui não sou preciso.

SOLDADO FRANCÊS 1: (Levantando as mãos ao céu.) Oh Madre de Dios! Oh Madre de Dios! Água, água, por amor de Dios!

FREI: (Para o POPULAR.) Ide buscar água.

POPULAR: Isso não faço eu! Não hei de fazer bem aos nossos inimigos!

FREI: Estes já não são nossos inimigos. Se antes o foram, estão já em estado de não poderem fazer mal algum.

POPULAR: Desculpe-me frade, mas porque haveríamos de acudir a quem nos veio prejudicar?

Música.

FREI: Se vossemecê estivesse no mesmo estado e na mesma miséria, desterrado da sua terra, sem abrigo de seus pais, desamparado de seus amigos, dos conhecidos, dos mesmos nacionais, abandonado de todo o auxílio humano, entregue ao rigor do sol, do frio, da fome, e da sede, sem poder dar um passo para procurar alguma subsistência, se vos sucedesse a mesma desgraça em que vê estes miseráveis, o que desejaria? (Silêncio. O POPULAR, desviando o olhar, mantém-se frio, ainda que se possa observar um pouco de vergonha.) Façamos-lhes, pois, o mesmo que então quereríamos nos fizessem a nós. Devemos amar ao nosso próximo, aos mesmos inimigos: assim manda Jesus Cristo, a santa igreja, a mesma razão. (Pausa. O POPULAR mantém-se indiferente e não se oferece para ir buscar água.) Assim seja! Se não quereis ir vós buscar a água, eu mesmo irei.


Acaba música. O FREI agarra numa botelha e numa vasilha que se encontram junto dos feridos e encaminha-se para ir buscar água. O POPULAR respira fundo, tira o seu casaco e oferece-o a um dos feridos e a seguir tira um pedaço de broa que tinha guardado no bolso e reparte por todos os feridos. Apanha outra botelha e corre em direção ao FREI.

POPULAR: (Já junto dos muros, onde enchem a vasilha e as botelhas com água.) Deixe- me levar eu a água, que pesa.

O FREI dá-lhe apenas a vasilha e seguem para junto dos feridos. Depois de repartir a água pelos feridos, o FREI tenta levantar um deles, encostando-o a si, mas este, estando sem forças, após dar o primeiro passo, acaba por cair sem sentidos no chão.

SOLDADO FRANCÊS 1: Frade, indique-me o caminho para a tal capela, irei levá-lo para lá, não podemos aguardar que nos venham buscar.

POPULAR: (Agarrando o francês ferido.) Eu lhes indicarei o caminho. Venham comigo. FREI: Bendito sejais! Eu irei ao convento buscar água, pão, vinho e peixe para vos levar.


Cena IV

Chegando ao convento - entrada de cena -, o FREI encontra o PADRE numa grande azáfama.

PADRE: Ainda bem que chega, meu caro amigo. Não sei de que modo havemos de pôr fora os dois oficiais que no convento se introduziram há já oito dias com ar de amizade.

FREI: E somos nós que os estamos sustentando, sem eles serem nossos conhecidos.

PADRE: Nem bem feitores.

FREI: Sabe de que modo há de ser, sem ficarmos mal? Como os franceses já estão na Vacariça, passamos voz que queremos fechar o convento, e fugir por não cairmos em suas mãos. Depois vamos até à serra, e quando nos parecer, voltaremos.

PADRE: Assim faremos!

TENENTE: Frei, dê-nos um bocadinho de vinho.

FREI: (Chegando junto dos oficiais.) Tendes que tirar todas as vossas bagagens. Queremos fechar o convento. Ninguém há de ficar das portas para dentro.

CAPITÃO: Mas porquê? Os Franceses não vêm cá.

FREI: Aprontem-se sem demora, que infalivelmente fecharemos o convento e abalaremos.

Um moço do convento que vem trazer pão, ao ouvir as palavras do FREI, fica preocupado.

MOÇO: Mas Frei, não podemos sair. Temos o pão amassado, não podemos deixá-lo.

O FREI, aflito, puxa o moço à parte enquanto faz sinal ao PADRE que distraia os oficiais.

FREI: Não se preocupem, não fazemos tenção de deixar o convento. É apenas para que os oficiais se vão.

MOÇO: Ah, compreendo! Louvo a vossa sabedoria, porque nos vimos já enfadados de tais sujeitos. Arrecadam quanta pólvora e espingardas aparecem na mata e pelo campo de batalha e comem e bebem à nossa custa. (Juntando-se novamente ao Padre e aos oficiais.) Irei, então, instar com todos que se apressem a colocar as véstias pelos ombros e que deixem o convento com brevidade. (Sai.)

TENENTE: Não se apressem! Havemos de almoçar primeiro!

FREI: Não há já vagar para tanto! Beba-se uma pinga e nada mais. Vamos daqui sem mais demora.

O PADRE dá-lhes uma garrafa de vinho e depois destes beberem um trago rápido, tira- lhes a garrafa, dá-a ao FREI e faz-lhes sinal para que saiam. Os dois OFICIAIS, a muito custo, acabam por pegar nas suas coisas e saem do convento. O PADRE segue-os para ter a certeza que se vão mesmo embora. Fica o FREI sozinho. Nesse instante, olha para a garrafa de vinho que tem na mão. Bebe um gole. Olha novamente para a garrafa, senta- se e bebe um gole maior. Recosta-se de cansado. Pausa. Ouve-se um tropel de cavalaria - som de sonoplastia com percussão. O FREI, assustado, espreita para fora. Volta para dentro. Nesse momento, reentram o PADRE e os dois OFICIAIS ingleses que ao verem as tropas, não tiveram tempo de sair do convento.

FREI: Vocemecês diziam que não vinham cá os franceses. Eles ali estão já.

O FREI acena com a mão para os franceses. Entram os franceses.

OFICIAL 1: Venha cá, senhor.

Frei junta-se a eles. O PADRE e os dois OFICIAIS ficam a observar ao longe.

OFICIAL 2: (Tira a barretina, cumprimenta o FREI e volta a colocar a barretina.) Nós vimos tomar conta dos armazéns de víveres que aqui ficaram dos ingleses.

FREI: Cá não ficou nada dos ingleses.

OFICIAL 3: Frade, não lhe convém mentir-nos dessa forma. Com certeza terão deixado alguma coisa para trás.

FREI: Não, meu senhor, cá não ficou mais dos ingleses que muita pólvora, à qual eles mesmos deitaram o fogo quando evacuaram de todo.

OFICIAL 1: A que horas foi esse fogo?

FREI: Foi à noite.

Os três oficiais franceses olham entre si e riem-se.

OFICIAL 1: Vimos que fala verdade, pois também nós ouvimos o grande estrondo que fez.

OFICIAL 3: A nós disseram-nos que aqui há armazéns de víveres. FREI: Pois enganaram-vos, senhor.

OFICIAL 1: Está na mata alguma tropa?

FREI: Não, senhores.

OFICIAL 2: Quantos monges estão aqui?

FREI: Só três. Os mais fugiram, segundo a ordem que havia do general inglês. OFICIAL 3: Amanhã há de vir aqui outro oficial francês saber se falais verdade ou não.

FREI: Pois ponham-se a pé, senhores oficiais, que eu lhes vou mostrar o convento todo. Os três oficiais riem-se de contentes.

OFICIAL 1: Não tenha medo, esteja sossegado, não fazemos mal algum. Havemos de lhe dar um papel para que ninguém vos faça mal.

OFICIAL 3: Têm algum trigo, vinho e pão cozido?

FREI: O pão está amassado para se cozer. Trigo e vinho, algum há.

OFICIAL 3: É muito?

FREI: Eu lho vou mostrar. Façam o favor. (Fazendo um gesto a indicar o caminho a seguir .)

O PADRE, assustado, junta-se ao FREI e puxa-o para lhe falar em segredo.

PADRE: Com certeza não estará a pensar mostrar-lhes o nosso pão?

FREI: Não poderia, estando ele todo metido no grande tonel, estaria a dar achado o nosso sustento e o nosso esconderijo.

Riem-se ambos, com amizade. O OFICIAL 3 repara numa porta fechada.

OFICIAL 3: Porque está fechada aquela porta? Abram-ma depressa. Estará com certeza alguma grande cousa lá escondida dentro.

O FREI faz sinal ao PADRE que corre a abrir a porta.

FREI: Não há lá cousa alguma escondida. Podeis ver com os seus próprios olhos.

OFICIAL 3: (Depois de observar que apenas existia peixe, fazendo um ar de nojo e descontentamento.) Que peixe é este?

PADRE: Cavalas, senhor!

O OFICIAL 3 olha para o padre com ar de zangado, achando que o padre estaria a gozar com ele.

OFICIAL 1: Pois que se prepare e se coza umas tantas, rapidamente, para os oficiais. FREI: Estão muito salgadas. Sem que primeiro se adocem, não prestam.

OFICIAL 3: Isso não importa! Cozam-nas depressa. Depressa! Não podemos demorar- nos. Havemos de entrar em Coimbra pelo meio dia juntamente com o general.

OFICIAL 2: Queremos tudo mal cozido, como os ingleses.

O OFICIAL 3 que inspecionava o local, repara no tenente inglês que se encontra fardado, com banda e espada.

OFICIAL 3: Ei! Vós! (Chegando-se ao TENENTE e inspecionando-o.) Venha connosco! (Agarra-o pelo braço e leva-o consigo para junto dos restantes oficiais.)

O outro, o CAPITÃO, estando sem farda, olha em cumplicidade para o PADRE e o FREI, aliviado por não ter sido descoberto.

OFICIAL 2: (Apercebendo-se de movimento fora dos muros, olhando e vendo um vulto armado. Para o OFICIAL 1.) Andam paisanos armados fora dos muros.

OFICIAL 1: Sr. Frei! Peço-lhe a gentileza de ir dar parte deste assunto, com o meu camarada. Vá lá acomodá-los. Que deixem as armas, que não lhes havemos de fazer mal. E que se recolham às suas casas e cultivem os campos. A guerra é para os soldados, não para eles.

Cena V

Os OFICIAIS 1 e 3 saem e o FREI acompanha o OFICIAL 2. Nesse momento vê-se um clérigo armado a chegar.

OFICIAL 2: Eh! Largai a arma!

O CLÉRIGO não faz caso, achando que era um soldado inglês.

FREI: Podeis largar que não lhe hão de fazer mal algum.

CLÉRIGO: Que soldado é?

FREI: Francês!

O CLÉRIGO, assustado, começa a fugir. O OFICIAL 2 pega numa pistola e atira, mas não lhe acerta. O CLÉRIGO, assustado, para e encolhe-se.

FREI: Porque foge?

CLÉRIGO: Não me roube o dinheiro, por favor! Não tenho nada mais para além do que trago comigo.

OFICIAL 2: Ah! Ide! Mas deixai a arma.

O CLÉRIGO, ainda assustado, larga a arma e sai a medo.

OFICIAL 2: Senhor, posso pedir-lhe que me dê um pouco do vinho?

O FREI acena positivamente com a cabeça. Nisto, outros soldados, que se encontravam por perto, feridos ou perdidos, alguns sem farda, outros com farda estragada, ouvindo que o FREI iria dar vinho, correm, pedindo que também lhes dê a eles, cada um com sua borracha na mão estendida.

FREI: Ides desculpar-me, mas terão que ir todos lá para fora. (Os soldados continuam a pedir vinho e a dizer que lhes encha bem as borrachas. O FREI olha para o oficial que estava com ele.) Ide chamar os restantes oficiais para porem lá fora estes soldados.
O OFICIAL 2 sai. Entra então o CAPITÃO INGLÊS e manda que todos dispersem. Os soldados, assim que o ouvem, desanimados e tristes, vão saindo. Nisto, entram novamente os oficiais franceses - trazendo o tenente -, que se apercebem do capitão.

OFICIAL 3: É oficial?

O CAPITÃO, assustado, não responde.

OFICIAL 1: Ponha a sua espada e a sua banda.

O CAPITÃO, aflito, olha para o FREI tentando pedir-lhe auxílio.

FREI: É capitão, sim! Mas de ordenança. Não tem cá nada disso, é de longe.

Os oficiais, ficando convencidos, colocam-se em posição de marcha. O CAPITÃO, olhando para o FREI como que agradecendo, suspira de alívio.

OFICIAL 3: (Olhando para trás.) Ainda assim, é melhor que venha connosco! CAPITÃO: Não há nisso necessidade! Eu sou primo do senhor padre, amigo de sua reverência, não é verdade? (Olhando para o FREI, pedindo suporte.)

O OFICIAL 3 não dá tempo ao FREI de responder. Agarra o CAPITÃO pelo braço e Leva-o consigo, juntando-o ao tenente. Vão para sair. Mas o FREI interrompe-os.

FREI: E o papel que me prometestes? (O OFICIAL 1 entrega-lhe o papel.) Agradeço- lhe, senhor. E aqui tendes um papel que lhe assegura que nós, os mais religiosos, nos certificamos que todos os vossos 60 feridos que ficaram no campo continuarão a ser tratados e lhes daremos pão, vinho e bacalhau, por não termos outra cousa.

Entrega-lhe a carta e o OFICIAL acena-lhe em forma de agradecimento e de despedida. Os OFICIAIS saem, a cavalo, levando a seu lado e a pé, o TENENTE e o CAPITÃO prisioneiros.

Cena VI

O FREI regressa ao convento. Olha para a carta que o OFICIAL lhe deu. Abre-a e lê-a para si.

FREI: (Guardando a carta e pegando no diário.) Estes franceses, a ninguém pediram dinheiro, nem fizeram o menor insulto, apesar de encontrarem aqui muitos paisanos, armas, pólvora e bala. E ainda suplicam, pela carta presente, que nenhum militar francês exija coisa alguma a nós e aos paisanos das aldeias vizinhas. (Abrindo o diário.) Ora, ao dia de ontem, terminei a escrita com a notícia de que chegaram já os franceses à Mealhada. Hoje principio a escrita, ao dia 1 de Outubro, dizendo que logo de manhã correu aqui o boato de que estavam os franceses em a Vacariça. Causou-nos isto grande susto.

Mudança de dia. O FREI, já sem o diário na mão, vai para sair e quase choca com o PADRE.

PADRE: Os soldados têm feito um grande estrago na igreja e me rasgaram já o colete com o sentido em dinheiro. Para que lhe deram o papel?

FREI: O piquete que chegou de manhã era de 50 franceses, com certeza, alguns aproveitaram enquanto foram os oficiais comigo ver os feridos, deixando o convento sem guarda para fazerem tais estragos.

PADRE: Quebraram a porta de um sacrário que há na capela do Senhor Ecce Homo e lançaram no chão o nicho do Menino Jesus. Roubaram um habito de Cristo que ele tinha ao pescoço e foram à cela do prior pela janela e fizeram em cavacos a arca das três chaves.

Ouvem uns barulhos fortes e espreitam, vendo uns vultos a pontapear e a empurrar uma porta.

PADRE: Que é lá isso, ó camaradas? VULTOS: Vinho, vinho!

FREI: Andem cá que eu lhes dou vinho. (Virando-se para o PADRE.) Vá e levai-os até aos oficiais, dizei-lhes que me haviam prometido de não fazerem mal ao convento, e que os soldados andam estragando tudo.

O PADRE sai empurrando os vultos para fora consigo. O PADRE vai para descansar, mas logo de seguida entra um oficial francês com os vultos anteriores. Um dos vultos vem já com a face a correr sangue. Entra o PADRE e aponta para o local onde estavam anteriormente os vultos a pontapear e empurrar a porta. Um deles abana a cabeça, negando ter sido ele. O OFICIAL agarra-o pela gola da farda e atira-o contra o chão. Depois agarra numa tábua e vai para lhe dar com a mesma, mas o FREI interrompe-o.

FREI: Não lhe dê mais, não queremos que derrame aqui sangue, há nisso necessidade. OFICIAL 4: (Largando a tábua e tirando a barretina.) Roubaram o santíssimo sacramento?

PADRE: Não, senhor, porque já nos tínhamos acautelado. Só arrombaram a porta.

OFICIAL 4: Desculpai-nos que não sabíamos da existência desta porta e por isso não pusemos cá guardas, como pusemos às outras. Mandarei para cá 4 soldados. Há de escrever ao nosso general, que ele há de dar satisfação. Este convento será sempre respeitado.

Silêncio. Os soldados (vultos) que estavam ainda ali, saem.

OFICIAL 4: Por favor, pode dar aos oficiais somente pão e vinho? FREI: Sim, senhor. Quantos são?

OFICIAL 4: Quatro. E queijo e doce, também podeis dar?

FREI: Não temos cá.

O FREI dá-lhe o vinho para a mão e ele bebe uma golada.

OFICIAL 4: Podeis também dar pão e vinho novo aos nossos camaradas e aos que estão de guarda? Aos outros, por serem maus, não.

FREI: Não temos vinho novo. Não há senão aquele que vos dou a vós.

OFICIAL 4: Mal empregado vinho em soldado. (Bebe mais uma golada e trinca o pão.)

Há já quatro semanas que não como pão.

PADRE: Que come então?

OFICIAL 4: Grão. Do mesmo que damos aos cavalos. Trincamos com o dente. (Pausa.) Pode dar-me algum pão para levar? (O FREI estende-lhe um pão.) Um só, não. (O FREI, desanimado, dá-lhe 4 pães.) Muito obrigado! Adeus, meu amigo!

O OFICIAL despede-se e o frade faz-lhe sinal como que o acompanhando até à saída, mas, ao sair, encontra um paisano - o mesmo do início - deitado a gemer muito.

FRADE: Que tendes?

PAISANO: (Chegando a mão ao peito.) Uma grande aflição, não posso levantar-me. PADRE: Farei um cozimento de flor de sabugueiro.

OFICIAL 4: Terá que nos mandar outro paisano para nos ensinar o caminho. FRADE: Era então este amigo que vos estava indicando o caminho?

OFICIAL 4: Era pois.

O FREI e o PADRE entreolham-se.

FRADE: Ide pois, que mandaremos quem vos acompanhe.

O OFICIAL 4 sai.

PAISANO: (Levantando-se de imediato.) Já lá vão esses diabos? Muito escárnio me têm feito. Deixá-los ir com Barrabás.

O FREI e o PADRE voltam a entreolhar-se e desmancham-se a rir. O paisano desaparece sem nem sequer se despedir. Depois de se acalmarem, o PADRE despede-se do FREI e sai.

Cena VII

O FREI dirige-se ao seu quarto, senta-se à mesa e abre o diário. A luz foca apenas no frade e aos poucos vai-se tornando ténue. Batidas no tambor idênticas às iniciais, mas com uma batida mais lenta e menos intensa.

FREI: Dias 3 e 4: Continuou o exército francês a sua marcha para Coimbra e dali para Lisboa. Aqui não tornaram mais os franceses. Em todos os 8 dias que aqui esteve o quartel general não se faltou a coisa alguma que nos pedissem. Demos camas a quase todos os oficiais. Para o Lord demos os melhores guardanapos que havia, quatro dúzias de velas e tudo o mais que continuamente estavam pedindo os mais oficiais. Até aos soldados e gente que vinha fugindo dávamos sal, e o mais que podíamos.

Gastámos com a tropa muito vinho, muito pão, muito queijo, muito azeite, e o mais à proporção.

O Lord, quando estava a partir, mandou dizer ao prelado, que queria pagar o que tinha gastado, que dissesse quanto queria. Ele respondeu que não queria mais que a paz no reino.

Este convento perdeu muito com a tropa: desapareceu quase tudo o que se havia dado para as camas e mesas dos oficiais. Do que era bom, nada ficou.

Perdemos o milho para as bestas e o feijão e as couves, não cessaram os soldados e mais gente de os apanhar. Ficámos desprovidos de tudo.

Muitas árvores foram estragadas. A tropa e toda a gente que vinha com ela queimaram quanta lenha quiseram por toda a mata. O muro, não tendo antes mais de duas portas, ficou com seis. E metade deste foi derrubado.

O comandante Trant, depois da tomada de Coimbra, mandou ir para o hospital do Porto os feridos que aqui tinham ficado. Em vinte dias que permaneceram aqui estes feridos ninguém mais do que nós, lhes dava alguma subsistência. Se não fossemos nós, morriam todos à fome e às mãos dos paisanos. Um dia, o padre foi achá-los na maior miséria, sem fardas, sem camisas, sem pantalonas.

Apenas cobertos com alguns farrapos e garnachos velhos. Tinham sido dois paisanos que lhes roubaram tudo quanto tinham. É até onde pode chegar a desumanidade de um português, indigno certamente até d’este nome! Destes 60 feridos, morreram 12. É verdade que os mortos não foram de mais, porém os feridos foram muitos.

Antes de vir para aqui Lord Wellington não entraram aqui ingleses, apesar de passarem por esta estrada continuamente. Porém, depois da batalha, o nome do Bussaco, antes desconhecido de muita gente, voou por toda a parte, fez-se respeitável, e os oficiais ingleses que vão e vêm do exército, vêm aqui pousar encantados d’este lugar.

Não se passa semana alguma que aqui não durmam alguns. Dá-nos isto em grande despesa. Mas, se por fim nos virmos em a paz tão desejada, e tão necessária como a mesma vida, damos tudo por bem empregado.

O grande Deus dos exércitos se digne conceder-no-la em breves dias, para a sua glória e nossa alegria!

Nas palavras finais, a luz está já quase nula, ficando apenas a luz de uma vela, que é apagada pelo frade, quando fecha o seu diário. A batida do tambor também vai perdendo amplitude e aos poucos vai-se ouvindo cada vez mais longinquamente - tanto em compasso, quanto em distância e volume -, ficando apenas a voz do FREI nos momentos finais do texto.