GUIÃO | EPISÓDIO 2


Personagens

WELLINGTON, general do exército anglo-luso - NELSON LUÍS
O ENCARREGADO, o mais jovem dos Carmelitas Descalços - GUSTAVO CALDEIRA
TRATADOR DE CAVALOS, português - NUNO MESQUITA
RAPAZ, soldado português - FRANCISCO ROBALO (AM)
GENERAL HILL - GIL FERREIRA (AM)
GENERAL CRAWFORD - PEDRO SEMEDO (OTC)
GENERAL PORTUGUÊS - ANTÓNIO RAMOS (GREHC)
4 CARMELITAS DESCALÇOS - VIVALDO SOARES (AM) | MANUEL FILIPE (OTC) | ALCIDES REGO (AJCL) | EDUARDO MOTA (AM)
O ANCIÃO, o mais idoso dos Carmelitas Descalços - TIAGO LOPES (voz-off)
A TROMPETISTA - JOANA d’ALMEIDA


Cena I

Em frente à árvore de Wellington. Sentada e encostada à árvore, sozinha, uma trompetista toca. Não temos nem teremos qualquer informação sobre esta personagem, nem a que lado ou nação ela pertence na história. O público, que nesta peça é também personagem, está relativamente próximo dela. Quando se chega ao clímax da música, ouve-se um grito de fora de cena.

RAPAZ: Abri alas!

A TROMPETISTA interrompe a música, levanta-se e foge. Chega WELLINGTON, o general das tropas anglo-lusas, com três generais, um soldado e um tratador do cavalos. Vêm lentamente, com WELLINGTON em cima de um cavalo conduzido pela mão do TRATADOR DE CAVALOS. Chegando à árvore, desmonta do cavalo. O TRATADOR DE CAVALOS ata a corda do cavalo à árvore.

WELLINGTON: Rapaz.

RAPAZ: Sim, meu comandante.

WELLINGTON: É ali o Convento de Santa Cruz do Bussaco. RAPAZ: Não sabia, meu comandante. Parece estar desocupado.

WELLINGTON: Ainda é noite, rapaz, com certeza toda a gente dorme. É aqui que habitam os frades da Ordem dos Carmelitas Descalços. Há já quase um dia que enviei um batedor à nossa frente para requisitar o espaço. Vai até ao pátio, bate-lhes à porta e faz informar de que eu, Lord Wellington, cheguei ao Bussaco e pretendo pernoitar no convento esta noite e as que se seguem. (O RAPAZ sai a correr. WELLINGTON observa-o. Pausa. Dirige-se às tropas.) Meus amigos e companheiros de batalha. Observem estas matas com atenção. Habituem-se a elas. Gostava de vos poder dizer que a nossa estadia será curta e que amanhã ou depois já estaremos de volta às nossas casas. Infelizmente, não é algo que vos consiga assegurar. Não me é possível assegurar-vos o dia em que teremos de nos fazer valer novamente contra o exército francês, como o temos feito amiúde nos últimos dois anos. General Crawford, o mapa.

CRAWFORD: Aqui está, comandante. (Entrega um mapa a WELLINGTON.)

WELLINGTON: (Analisando o mapa.) Sabemos agora que o marechal Massena pretende marchar sobre o Bussaco para chegar a Coimbra. Só não sabemos o quando e, em boa verdade, o porquê. (Apontando no mapa.) Seria de pensar que eles contornassem precisamente esta terra, se querem chegar aqui. Suponho que Massena tenha sido mal informado e tenha tido mais dificuldades nos seus movimentos do que estava à espera. Não há dúvida que escolheu uma das piores estradas em Portugal para a sua marcha.

HILL: Porque é que os franceses ainda não chegaram a estas terras? Se já estavam tão perto.

WELLINGTON: Só podemos deduzir, general. Por isso dizia que não conseguimos prever com exatidão a duração da nossa estadia. Se eles já estavam em Viseu, o mais lógico seria procurarem uma acção rápida e fatal. Talvez estejam com falta de transportes, ou de mantimentos, ou de animais de carga...

HILL: Talvez estejam à espera que acabe o calor danado destes últimos dias. Pausa. WELLINGTON não responde, está pensativo.

WELLINGTON: Bem, não sabemos. Crawford, tem a carta que mandei redigir para ser enviada ao marechal francês?

CRAWFORD: Aqui está ela, comandante.

WELLINGTON: Leia-ma.

CRA WFORD: DE WELLINGTON AO MARECHAL MASSENA, PRÍNCIPE DE ESSLING: Senhor Marechal,
Fez-me grande pena saber que haveis dado ordens ao exército francês para não fazer prisioneiros entre as Ordenanças Portuguesas, e que as forças francesas, obedecendo a esta ordem, fuzilam todos os deste corpo que lhes caiam nas mãos.
Desde que eu comando as tropas neste país, tenho conseguido fazer a guerra de uma maneira leal, e feito respeitar os usos da guerra estabelecidos e reconhecidos. Mas se o exército francês continuar a fuzilar os prisioneiros portugueses, não se pode esperar que os soldados do exército português não exerçam represálias sobre os prisioneiros que fizerem do exército francês. Não estará mais no meu poder protegê-los, e as ordens que haveis dado serão a causa das infelicidades que sofrerão os soldados do exército francês que caiam nas mãos das tropas portuguesas.
Tenho a honra de ser, etc.


WELLINGTON: Óptimo. Vejam: o rapaz está a voltar de dentro do convento. Vamos poder dormir, por fim. General Crawford, assim que se fizer manhã, mande enviar essa carta.

CRAWFORD: Entendido.

WELLINGTON: (Acariciando o cavalo.) Até amanhã, meu caro amigo. (Para todos.) Uma coisa é certa: se conseguirmos ganhar esta guerra, ninguém vai ter atrevimento suficiente para cortar esta árvore. Daqui a duzentos anos ainda cá vai estar, garanto-vos. (Riem-se. O RAPAZ chega, exaltado.)

RAPAZ: (De fora.) Meu comandante! Meu comandante! (Os generais ficam confusos com o tom do RAPAZ. Ele chega à árvore, a correr.) Meu comandante! Meu comandante! Há um homem à porta que manda dizer que só falará diretamente com o comandante das tropas, senhor. Isto é, só falará diretamente consigo.

WELLINGTON: Quem é esse homem?

RAPAZ: Não sei, talvez um representante dos Carmelitas... Venha, venha! WELLINGTON: Vamos.

Saem todos, público incluído, em direção ao pátio do convento. Sem se saber bem de onde, ouve-se a TROMPETISTA a tocar.

Cena II

WELLINGTON: Boa noite.

O ENCARREGADO: Tenho a honra de falar com o general do exército britânico?

WELLINGTON: Sou o comandante em chefe das tropas anglo-lusas. Chamo-me Arthur Wellesley, ou Wellington.

Pausa.

O ENCARREGADO: Não é bem-vindo aqui. WELLINGTON: Perdão?

O ENCARREGADO: Vossa Excelência não é bem-vinda a abrigar-se com os frades deste lugar.

Pausa. Tensão.

WELLINGTON: E por quem tenho a honra de ser barrado?

O ENCARREGADO: Há quase duzentos anos que tentamos fazer deste convento um paraíso para os que se encarregam dele; não seria de bom grado perturbar-nos entrando pelas suas portas dentro com armas e espadas e guerras. Peço-lhe que volte por onde veio, ou por outro caminho que seja mais seguro.

WELLINGTON: Meu amigo, as armas e guerras chegarão às suas portas, quer queira, quer não.

Pausa. O ENCARREGADO sorri.

O ENCARREGADO: A minha resposta é final. (Vai para entrar no convento.)

WELLINGTON: Há algo neste sítio contra nós? Não estamos a exigir mais que um abrigo e comida, um lugar onde montar um quartel durante os próximos dias para nos prepararmos com decência para a batalha que aí vem. E ela vem, quer o meu amigo lhe abra a porta ou não. É bom que tenha autoridade suficiente sobre este lugar para recusar abrigo ao comandante desta multidão.

O ENCARREGADO: Sois livres de fazer a vossa guerra noutro sítio sem desassossegar o paraíso com exigências.

WELLINGTON: Ouça-me bem, que eu gosto pouco de me repetir: os franceses vão tentar ocupar Coimbra atravessando a vossa terra. O Marechal Massena dirige-se agora para a Serra do Bussaco com sessenta e cinco mil tropas atrás de si, e só por via de algum milagre é que já cá não está há mais tempo. Quis Deus ou o destino que ele não tomasse uma decisão de ação rápida, e eu pretendo aproveitar esse tempo da melhor maneira possível. Para isso, preciso deste espaço. (Pausa.) Chama-lhe a nossa guerra? Não é vossa também? (Pausa. O ENCARREGADO sorri apenas.) Então? Fui eu quem a começou?

O ENCARREGADO: Não foram, com certeza, os portugueses.

WELLINGTON: Nem os britânicos.

O ENCARREGADO: Verdade? Quem são então os britânicos, nesta estória?

WELLINGTON: Quem vos vem salvar a pele já pela terceira vez! (Pausa. Arrepende-se do que disse.) Meu amigo, não faça confusão: entre estes homens não há só ingleses.

O ENCARREGADO: Sei bem. E sei também que foram os portugueses os autores dos melhores feitos nas duas anteriores invasões, ainda que pouca ou nenhuma honra lhes seja reconhecida a respeito disso. Nesse aspecto, somos apenas vistos como a ferramenta, o criado e a mula de carga da Inglaterra.

WELLINGTON: Tenho muita pena que assim seja, mas não é mentira que é graças à ação e ajuda britânica que este país ainda não foi transformado em pó.

O ENCARREGADO: Este país vai acabar transformado em pó, quer seja pela invasão dos franceses ou pela salvação dos ingleses.

WELLINGTON: São as leis da guerra, não podemos evitá-las.

O ENCARREGADO: É ou não é verdade que há pouco tempo Vossa Excelência decidiu ordenar às populações que deixassem as suas casas e as suas localidades e que destruíssem tudo o que era deles?

WELLINGTON: Não vou perder tempo nem cabeça a discutir política se não entende os benefícios dessa jogada.

O ENCARREGADO: A que custo é que vêm esses benefícios? Não é capaz de ver para além do desejo pela vitória?

WELLINGTON: A vitória dos britânicos e a expulsão dos franceses são o meu único objectivo. Dos britânicos e dos portugueses, bem entendido.

O ENCARREGADO: É fácil proclamar políticas dessa espécie num país que não é nosso. Terra queimada, é assim que lhe chama? Estaria disposto a queimar a terra do seu país se os franceses lá chegassem?

WELLINGTON: Isso é realmente muito ingrato de se perguntar a alguém que vem acudir na destruição da vossa casa.

O ENCARREGADO: Quem tem a coragem de fazer o bem, tem que ter a sabedoria de suportar a ingratidão. Boa noite. (Vai para sair. Para. Volta a enfrentar WELLINGTON.) Na verdade, não acho que ficaria em paz comigo próprio se não dissesse mais uma ou duas palavras. (Pausa.) Não digo que, pela parte que lhe diz respeito, Lord Wellington, não tenha havido grandes feitos nesta guerra. Não digo que não seja um estratega e militar muitíssimo competente. Não digo sequer que a movimentação das tropas inglesas não venha de um lugar de generosidade e humanidade. O que eu digo é que tenho os meus receios em relação ao que vai sobrar do povo português no pós-guerra que aí vem, quer acabemos vitoriosos ou derrotados.
A minha vida sempre pertenceu à pobreza. Neste paraíso encontrei uma forma de lhe dar significado e justificação, mas nunca virá o dia em que me esqueça que nem todas as vidas têm essa possibilidade. O meu voto de pobreza é a empatia para com aqueles que não têm poder de escolha. Essa condição é a única realidade da esmagadora maioria dos homens e mulheres deste país e, no entanto, são repetidamente esses a quem são exigidos os maiores esforços nesta guerra, sem compensação que se veja nem que se preveja. Daí vem o meu ceticismo. Não tenho o dom de ver o futuro, mas prevejo tempos escuros para aqueles que menos culpa têm: o povo deste país. (Pausa.) Agora sim, vou-me; lamento a acidez das minhas palavras, mas como já tinha dito, a minha resposta é final.
Vira-se. Quando vai a entrar para o convento, há um som agressivo que vem do Convento. O ENCARREGADO ajoelha-se, as tropas assustam-se. Todos tirando WELLINGTON tiram o chapéu. Música.

O ANCIÃO: (Voz-off.) Lord Wellington. Há várias horas que o esperávamos, e trabalhamos neste momento com afinco para o receber da melhor maneira possível. Vossa Excelência tem aqui uma excelente posição onde pretende dar batalha e vem pedir-nos auxílio, mesmo podendo estar a desmanchar a harmonia do quotidiano dos frades que aqui habitam. Pela graça de Deus, esse pedido foi concedido. Não se deixe ofender pela conversa do nosso mais recente Carmelita; a juventude é a idade em que os olhos brilham sem ver. Com o tempo, ele entenderá que da guerra vem cedo o dano e tarde o proveito. Quem lhe falou foi a sua mocidade; o convento fala por si. Entre. Entre e seja bem-vindo.

Cautelosamente, WELLINGTON entra para dentro do convento. Um dos generais chega-se à frente e dirige-se a todos.

HILL: Sigam-me.

Entram todos para dentro do convento.

Cena III
Os assistentes de sala conduzem o público num percurso pelo corredor. Ao longo do percurso, podemos ver quatro câmaras através de vidros, onde os frades executam tarefas relacionadas com o acolhimento de WELLINGTON. As câmaras estão repletas de fumo e com luzes simultaneamente deslumbrantes e assombrosas. A TROMPETISTA está, algures, a tocar.

Na primeira câmara, dois frades descascam batatas e amassam pão em frente a um caldeirão. Na segunda, dois frades discutem com agressividade, apontando para a câmara seguinte.

Na terceira, os três generais que acompanhavam WELLINGTON jogam às cartas e bebem vinho.

Na última, um frade reza num genuflexório.

O público sai. Passaram-se vários dias desde a chegada do exército. WELLINGTON já está no pátio. Espera que o público se sente.

WELLINGTON: Darei início à recapitulação da posição das divisões de Sul para Norte e a partir do Rio Mondego:
Comandada pelo general Hill, a 2a divisão reforçada, entre o Sobral e a Portela de Oliveira; Comandada pelo general Leith, a 5a divisão ficará entre Portela de Oliveira e Santo António do Cântaro;
Entre Santo António do Cântaro e a bifurcação para a Cruz Alta, a 3a divisão, ao encargo do general Picton;
Comandada pelo general Spencer, estará a 1a divisão entre a bifurcação para a Cruz Alta e a cerca da Mata do Bussaco;
A divisão ligeira encontrar-se-á na região correspondente à curva de estrada em frente à povoação de Sula. Será comandada pelo general Crawford.
General Crawford, tem a carta?

CRAWFORD: Aqui está, comandante. (Abre uma carta e lê em voz alta.)

DE WELLINGTON AO MARECHAL MASSENA, PRÍNCIPE DE ESSLING: Senhor Marechal,
Tive a honra de receber a carta que Vossa Ex.a me enviou.
O que chamais “camponeses sem uniforme, assassinos e ladrões de estrada real” são as Ordenanças do país, pagos e agindo sob leis militares. Parece que exigis que aqueles que gozam dos direitos da guerra estejam uniformizados, mas a questão está somente em saber se um país que é invadido por um inimigo formidável tem o direito de se defender por todos os meios em seu poder.
Tendo em conta a conduta dos soldados do exército francês para com as suas propriedades, mulheres e filhos, não é de admirar que eles deixem os seus lares voluntariamente, queimando e destruindo tudo o que não podem levar; e não tenho nenhuma desculpa a apresentar para o encorajamento que lhes dou, excepto pelos inconvenientes pessoais que podem causar a V. Ex.a.
Tenho a honra de ser, etc.
Wellington

WELLINGTON: Óptimo. General Hill, que dia é hoje?

HILL: É dia 27, meu comandante.

WELLINGTON: 27 de setembro do ano de 1810... Queira Deus que este dia fique marcado nos livros históricos como o dia da reviravolta do nosso exército contra as tropas de Massena. Uma semana volvida, sinto-me agora plenamente convencido de que a vitória será nossa. Vamos - rumo à que ficará conhecida como “A batalha do Bussaco”. My dear Massena, good night!

A TROMPETISTA toca. Blackout no final da música.