GUIÃO | EPISÓDIO 1


Personagens

HOMEM, elemento do povo - JOÃO TARRAFA
ANA, elemento do povo - MARTA PIRES
DUARTE E HENRIQUE, filhos do Homem e da Ana - AFONSO PIRES e TOMÁS PIRES
MOLEIRO DE SULA - DINIS BINNEMA PASTOR - JOSÉ MACHADO LOPES (OTC) POPULAR 1 - JORGE SOUSA (OTC) POPULAR 2 - FRANCISCO ROBALO (AM) POPULAR 3 - DIOGO MANAIA
MULHER 1 - NOÉMIA LOPES (OTC) MULHER 2 - ANA SOARES (AM)
MULHER 3 - MANUELA FERNANDES (OTC) MULHER 4 - ANA MANNARINO (OTC) MULHER 5 - CARMINDA FERREIRA (AM) MULHER 6 - ELISABETE SOUSA (AM) MULHER 7 - LAURA FERREIRA
MULHER 8 - ANA PEREIRA
OFICIAL - ANTÓNIO RAMOS (GREHC) MILITAR - CARLOS SIMÕES SARGENTO (voz-off)


O público entra com as luzes a incidir muito tenuemente no espaço de ação que nos remete para o interior de uma casa. Ouve-se alguém a cantar - inicialmente sem acompanhamento musical, que entrará após a primeira estrofe. Um foco de luz acende sobre o ator que se encontra em destaque em cima do muro, a tocar e a cantar. Entra Ana e os seus filhos. Enquanto ela canta, tenta adormecer as crianças.

Canto esta canção
De guerra e paixão
De um tempo que passou De um terror que se instalou
Canto esta canção Um conto de uma nação Canto esta canção Um conto de uma nação E no seio de um povo Uma voz ergueu a razão
Canto esta canção
De alma e coração Canto esta canção
De alma e coração
De uma Pátria desarmada Por Napoleão destroçada

HOMEM: Junto dos muros do Bussaco se feriu, no dia 27 de Setembro de 1810, uma famosa batalha, em que o exército anglo-luso, sob o comando de Lord Wellington, ofuscou pela primeira vez a glória militar do célebre e afortunado Massena – filho querido da vitória, como lhe chamava Napoleão. (A música acaba.)
O que aqui, hoje, se vê, é nada mais, nada menos do que o terrível resultado que a passagem das tropas francesas e inglesas provocaram no nosso território. Um rastro de destruição, terror e miséria que deixaram marcas de dor que se eternizaram no tempo. Casas destruídas, igrejas e capelas - como a que estaria neste espaço -, profanadas e vandalizadas e um povo que perde a sua identidade e glória.
Mas como chegámos até aqui?
Pois bem, “havendo as tropas francesas invadido por duas vezes o nosso país, sem que obtivessem vantagem decidida, a primeira vez em 1807, capitaneadas por Junot, e a segunda em 1809 por Soult; resolveu Napoleão mandar de novo invadir Portugal por um grande exército sob o comando do marechal Masséna, que efetivamente transpôs a nossa fronteira em agosto de 1810, depois de tomar Astorga e Ciudad Rodrigo.
Entradas as tropas francesas em Portugal, o seu primeiro passo foi o cerco de Almeida. Uma terrível explosão nos armazéns de pólvora d’esta praça obrigou a guarnição a capitular.
Tratou Massena imediatamente de dispor as cousas para realizar o seu plano de invasão. Disse ele: “ordeno aos diversos corpos do exército que façam colheitas e se provam de víveres para dezassete dias” – tempo que calculara o necessário para a conquista de Portugal.
No dia 20 de Setembro acamparam as tropas junto de Viseu. Esta cidade fora abandonada pelos habitantes.
No mesmo dia, manda-se preparar tudo para a chegada de Lord Wellington, mas tudo foi tão rápido e sem aviso que, aqui entre a arraia-miúda, o povo destas terras, o susto foi tal que se levantou um alvoroço que agora aqui irão assistir.
Ouve-se um grande alvoroço e começa-se a ver as primeiras pessoas a tentar fugir. Um pastor que corre para ir buscar as ovelhas, grita “Fujam! Levem tudo e fujam!”. As outras pessoas gritam frases semelhantes.

ANA: (Aproximando-se da janela.) Mas que confusão! Vem, homem, vem ver o que se passa.

O HOMEM desce o muro e junta-se à mulher. Mulheres, homens e crianças aparecem a espreitar para ver o que se passa.

SARGENTO: (Voz-off.) Aviso à população por parte do vosso sargento: Enquanto não receberem ordens das autoridades militares, deixem-se sossegados, as mulheres e as crianças que se fechem em casa, os homens que se preparem.

HOMEM: O perigo está próximo.
Os homens e mulheres que se encontravam à espreita ficam assustados e começam a entrar em alvoroço. O povo corre de um lado para o outro com os filhos ao colo, com as suas relíquias em mãos, com material do campo de um lado para o outro. Com toda a confusão, DUARTE e HENRIQUE acordam e aos poucos vão-se juntando aos pais.

HOMEM: De todo o lado vem gente espavorida.

ANA: (Em ansiedade a olhar em direção a Santa Comba.) Vede, avista-se, para os lados de Santa Comba, nuvens de fumo.

SARGENTO: (Voz-off.) Aviso à população por parte do vosso sargento: O Duque de Wellington ordenou que colocássemos em prática a política da terra queimada. Queimem as vossas casas, queimem os vossos celeiros, adegas, abegoarias para que nada caia nas mãos dos invasores. As mulheres e as crianças que se fechem em casa, os homens que se preparem.

PASTOR: (Chegando junto da janela da casa de ANA e do HOMEM.) Diz-se por aí que os franceses já chegaram a Tondela e que já houve tiroteio em Mortágua entre as guardas- avançadas Francesas e a divisão ligeira comandada pelo General Crawford.

MULHER 1: Como é que sabe isso?

PASTOR: Parece que apareceu na Moira uma patrulha que tinha um soldado ferido, que sangrava da orelha. Quando o povo foi acudir falou-se disso, e agora toda a gente sabe.

ANA: E vão para onde, os franceses?

HOMEM: Das duas uma: ou vão por Aveiro, ou tentam atravessar a serra do Buçaco. 

ANA: Valha-me Deus! Nem na serra, junto de um mosteiro abençoado de Deus, nos deixam tranquilos?!

PASTOR: O melhor é fugir, meus amigos, o melhor é fugir. (Sai.) HOMEM: Vamos Ana, é melhor começarmos a pensar em fugir. Algumas mulheres rezam.

ANA: Fugir? Para onde?

SARGENTO: (Voz-off.) Repito! As mulheres e as crianças que se fechem em casa, os homens que se preparem.
Ouve-se ao longe o som de tropas a marchar.

ANA: As tropas estão a aproximar-se.

HENRIQUE: E agora, pai?

HOMEM : Agora, será o que Deus quiser.

DUARTE: Mãe, porque é que isto nos está a acontecer?

ANA: O teu pai é que sabe falar dessas coisas, pergunta-lhe a ele. HOMEM: É difícil explicar, filho. Sabes quem é Napoleão Bonaparte?

DUARTE: Não.

HOMEM: É o imperador de França. Como nós temos o nosso rei - que neste caso não é rei, é o príncipe regente D. João VI -, eles têm um imperador, que é quem manda na nação. E as pessoas que mandam em França não gostam das pessoas que mandam na Inglaterra, e o contrário. Por isso, há quatro anos o Napoleão ordenou a todos os países da Europa que não deixassem mais entrar os navios ingleses nos seus territórios.

HENRIQUE: E Portugal não deixou?

HOMEM: Portugal continuou a deixar, porque a Inglaterra é nossa amiga já há muito tempo. Por isso é que isto está a acontecer. O Napoleão ficou muito chateado connosco e mandou invadir o nosso país. Já lá foram duas invasões francesas. Esta é a terceira, e para o bem ou para o mal, esperemos que seja a derradeira.
A vir na direção do moinho, vê-se um homem risonho, com um lenço vermelho atado na cabeça, as pernas bamboando apertadas numas polainas de saragoça de varas, o capote pelos ombros. É o moleiro de Sula, que segue com serenidade evangélica o seu caminho.

HOMEM: Olhem, vem ali o meu caro amigo moleiro. Tio João Rana! Seja bem aparecido! Que há de novidades?

MOLEIRO: O Diabo em pessoa vai chegar à casa de Deus.

HOMEM: Quem? Wellington?

MOLEIRO: Pois claro. Mandou o aviso de que vinha hospedar-se no convento.

HOMEM: (Para a família.) Este senhor é o Moleiro que trabalha por conta do Convento do Buçaco. Digam-lhe olá.

DUARTE E HENRIQUE: Olá, senhor João! ANA: Viva Tio João!

HENRIQUE: Papá, quem é o Wellington?

HOMEM: É o general que comanda as tropas inglesas. Ele veio de Inglaterra ajudar-nos na guerra contra os franceses. Por isso é que o nosso exército agora tem as tropas portuguesas e inglesas juntas.

MOLEIRO: Veio ajudar-nos, veio. Vocemessê chama a isto ajudar? Está tudo a arder! HOMEM: É a estratégia do Wellington, o que é que quer?...

MOLEIRO: (Rindo-se.) Bela estratégia, está visto!

HOMEM: É a política da terra queimada... Se nós queimarmos tudo o que for nosso, a nossa comida, a nossa roupa, essas coisas, então os franceses quando passarem aqui não têm nada para comer nem roubar.

MOLEIRO: Ó homem, eu não digo que não seja uma boa estratégia, com certeza servirá o seu propósito. Mas o que é que vai ser de nós, do povo, das gentes pequenas, enfim, da arraia-miúda? Vamos sobreviver a essa estratégia, ou vamos acabar por ter o mesmo fim que as tropas francesas? E vamos lá ver uma coisa: dizem que os ingleses vieram para nos salvar, mas se no fim disto não restar povo vivo, então eles vieram salvar quem, afinal? (Ri-se.) As pessoas de alto gabarito não precisam de salvação. Vejam o nosso príncipe regente D. João VI: assim que ouviu falar que Napoleão mandava para cá o seu exército, zarpou logo para o Brasil.

HOMEM: Pois foi, os franceses ficaram literalmente a ver navios quando cá chegaram! ANA: Mas ó Tio João Rana, isso também foi estratégia! Não foi covardia.

MOLEIRO: Eu não estou a dizer nada disso, longe de mim.

ANA: É que se nos apanhassem o rei, estaríamos em muitos maus lençóis.

MOLEIRO: Verdade. Mas os lençóis em que estamos agora também não são lá muito bem cheirosos. Agora, com a vossa licença, tenho de me pôr a caminho.

HOMEM: Para onde vai vossemecê?

MOLEIRO: Para onde vou? Vou para o moinho.
ANA: Não vá, homem. Não vá que vêm aí os franceses.

MOLEIRO: Então, onde é que eles vêm?

ANA: Não vê além o fumo?

MOLEIRO: Vossemecê cuida que eles botam lá ao cimo da serra? Não têm barbas para isso. A serra é alta, e há por aí cada S. Judas de cada penedo, que em rebolando pela montanha abaixo acabam-se os franceses todos. Um homem não volta as costas ao perigo. Com sua licença, salve-os Deus. (Segue o seu caminho.)

HOMEM: Lá vai ele, tão jovial e seguro de si como se os franceses ainda viessem em Espanha. (Pausa.) Arruma as coisas, vamos embora.

OFICIAL: Por ordem expressa do Sr. Comandante Beresford, manda o nosso General Leigh que todo o homem que esteja em plena função e capaz, que tenha já recebido instruções e treinamentos anteriores e se encontre apto se voluntarie e se coloque ao serviço do nosso exército, juntando-se às nossas tropas.

POPULAR 1: (Para outro popular.) Não percebo porque é que temos que nos juntar, não têm eles já oficiais suficientes?

POPULAR 2: Sabes bem que a primeira invasão condenou as nossas forças armadas. Napoleão, sabendo que Junot encontrou Portugal largado aos leões e desgovernado, aproveitou a situação e mandou a esse general que desarmasse os habitantes e despedisse todas as tropas portuguesas. Ficámos sem ninguém e só mais tarde conseguimos recuperar parte das nossas forças.
Ouve-se ao longe o som de tropas a marchar e uma corneta. Chega um batalhão e dirige- se ao povo, lendo um comunicado.

ANA e o marido interrompem-se e ficam a escutar.

HOMEM: (Que entretanto saiu de casa e ouve a conversa.) E se não fosse pelo Sr. Comandante Beresford que organizou tão bem as nossas tropas, não teríamos hoje um exército tão competente.

POPULAR 1: Ah! As medidas do Beresford só têm mostrado contradições. Umas vezes impõe castigos excessivos por pequenas faltas; outras, não castiga faltas graves; e muitas vezes, dirige acres censuras aos vogaes dos conselhos de guerra, apesar de confirmar as suas resoluções.

HOMEM: Há medidas que podem ser alvo de crítica, mas concentremo-nos nas que devem ser elogiadas. A disciplina e a ordem que Beresford ordena ao nosso Exército permite-nos hoje estarmos em perfeita formação para lutar contra o inimigo. Em tempos como este, diria que é até um orgulho ser chamado para exercer o nosso dever.

OFICIAL: Exige Sir Beresford que os soldados que se apresentem, estejam asseados, devendo o cabelo estar cortado e bem lavado. Por esta razão, fornece-se a cada soldado sabão, pentes e escovas.

Os populares olham entre si, com estranheza. Um deles chega-se à frente.

Música.

POPULAR 2: Por feito com orgulho, me apresento sob as vossas ordens.

POPULAR 1: Estais certo do que dizeis?

POPULAR 2: Mais não podia ser verdade!

HOMEM: (Regressando para junto da mulher.) Ana, nem acredito que vou dizer isto, mas... não posso fugir. O moleiro tem razão, um homem não volta as costas ao perigo. E eu não posso virar as costas à nossa pátria.

ANA: Tu que dizes?

HOMEM: Digo que não podemos abandonar as nossas gentes, a nossa terra. Temos que ficar. Vamos ficar e lutar. Um homem não volta as costas ao perigo.

ANA: Mas vais para a guerra, meu homem?

HOMEM: Irei mulher, irei. E sei que te irás orgulhar de mim!

ANA: É certo, homem! Muito me orgulha que te mantenhas um homem íntegro e fiel. (Pausa. Olham-se e sorriem saudosistas. Ele pega no chapéu e vai para sair de casa, mas para, olha para trás e baixa-se abrindo os braços. Nesse momento, os filhos correm para ele e abraçam-no.) E eu, meu homem, o que farei eu sem ti?

HOMEM: (Levantando-se e encostando a mão na face de ANA, com carinho.) Eu faço isto pela nossa família e pela nossa pátria. Foi para isto que treinei. E foi à espera deste momento que guardámos a minha farda estes anos todos. Tu cuidarás dos nossos filhos, essa será a tua batalha. (ANA acena afirmativamente com a cabeça.) Adeus, meus pequeninos.

ANA: Que nos voltemos a reencontrar em breve.

HOMEM: Fica prometido! (Sai de casa. Faz continência.) Por feito com orgulho, me apresento sob as vossas ordens.

POPULAR 1: Ah não! Também tu! Por certo não serei o único a ficar para trás. Bom, lá terá que ser! Por feito com orgulho, me apresento sob as vossas ordens.

OFICIAL: Assim é! Sigam o nosso comando e marchemos, rumo ao Bussaco.

Vê-se as tropas a seguirem caminho, com os três homens juntando-se às colunas. Desaparecem. ANA, DUARTE e HENRIQUE estão à porta a verem o pai a ir embora, agarrados uns aos outros. Assim que se vê desvanecer-se o corpo de forças armadas, todos os populares recolhem a casa e fica um duro silêncio. ANA e os filhos recolhem para dentro de casa.

ANA: Vamos meninos, vamos dormir, amanhã será um longo dia. Por esta altura, já nós estaremos lançados à sorte. E seja o que Deus quiser!

DUARTE: (Deitando-se na cama.) Mãe, para onde foi o pai? ANA: Foi lutar por nós, meu filho.

HENRIQUE: Mas mãe, quando é que o pai regressa?

ANA: Shh... Dorme, meu filho. Dorme...

As crianças fecham os olhos para dormir. ANA canta para os adormecer. Ao longo da música, as luzes começam a diminuir até ao blackout, permanecendo ainda um curto espaço de tempo apenas a voz de ANA.

Canto esta canção
De guerra e paixão Canto esta canção
De guerra e paixão
De um tempo que passou De um terror que se instalou
Canto esta canção Um conto de uma nação Canto esta canção Um conto de uma nação E no seio de um povo Uma voz ergueu a razão
Canto esta canção
De alma e coração
De uma Pátria desarmada Por Napoleão destroçada