TERRA QUEIMADA
INVASÃO E RESISTÊNCIA

A HISTÓRIA

Portugal, 1810. Uma ameaça iminente revela-se: a terceira invasão francesa.

Napoleão Bonaparte, Imperador Francês, tem, nos anos prévios, procurado a hegemonia política e militar na Europa, alargando o seu lendário império. No entanto, havia uma nação que não se deixava ocupar: a Inglaterra.

A estratégia do Imperador para a sua conquista nunca poderia passar por atacar os britânicos no seu país, uma vez que estes detinham o poderio militar marítimo, fruto da sua natureza geográfica. Decidiu, então, sufocá-los economicamente, proibindo todas nações europeias de permitirem a entrada de navios ingleses nos seus territórios - esta proibição denominou-se “Bloqueio Continental”.

Portugal, por muita vontade que pudesse ter ou não ter de satisfazer tal ordem, detinha laços antigos com a Inglaterra, pelo que se viu verdadeiramente colocado entre a espada e a parede, situação que nos obrigou a desobedecer a Napoleão. Começam assim as Invasões Francesas, e tanto o Imperador como os ingleses conseguiram algo que lhes favorecia: batalharem-se sem serem obrigados a fazer dos seus países um palco de guerra, usando para esse efeito o nosso jardim à beira-mar plantado.

Numa primeira invasão a Portugal, as tropas francesas, sem encontrarem qualquer resistência organizada, conseguem chegar a Lisboa a 30 de novembro de 1807. A família real portuguesa vê-se obrigada a abandonar o país, exilando-se no Brasil. Em agosto do ano seguinte, chega a Portugal o general Arthur Wellesley que, com a sua tropa de cerca de 16 mil homens e reforçada por cerca de 2 mil homens portugueses, consegue derrotar as tropas francesas, num primeiro confronto na Roliça e num segundo confronto no Vimeiro, por superioridade numérica. As forças francesas efetivam assim, a sua rendição.

Não satisfeito com o resultado da primeira invasão, o Imperador ordena uma segunda invasão e assim, em 1809, retornam as tropas francesas, desta vez rumando até ao Porto. Uma vez mais, conseguiu o exército luso-britânico resistir à invasão do inimigo, expulsando-o pela segunda vez do nosso país. Apesar da vitória, por toda a zona norte do país, resta um rastro de mortos, destruição e pilhagem. As nossas tropas ficaram desfeitas e desorganizadas e muitas famílias desalojadas.

Não sendo capaz de deixar de parte o seu megalómano sonho de reconstruir um Império Europeu, Napoleão reúne um maior e mais formidável exército e invade Portugal pela terceira vez.

Episódio 1

Estamos na Mealhada, em setembro de 1810. Há um silêncio perturbador que paira no ar, um clima de tensão. O povo sente o seu destino a aproximar-se, tempos difíceis virão. De repente, ouve-se um homem a gritar ao longe “Fujam, levem tudo e fujam”. Todas as famílias saem para a rua confusas e preocupadas. Mas fugir para onde e porquê? E agora?

A Política da Terra Queimada entra em vigor. Gera-se o pânico, subitamente a população vê-se obrigada a destruir os seus bens e a deixar as suas casas e as suas terras, a destruir tudo o que possa servir de sustento e recurso, aos opositores - os franceses, que invadem o nosso País - para que estes não tenham por onde atacar, nem nenhum sustento ou recurso de sobrevivência. É este o único método para a salvação de uma nação. Têm de agir, destruir tudo e fugir.

Os homens da aldeia voluntariam-se e alistam-se no exército para combater contra o inimigo. Vê-se um homem a deixar a sua mulher e o seu filho recém-nascido, vê-se um jovem a despedir-se da mãe e da irmã e vê-se uma mulher preocupada que tenta tranquilizar os seus filhos, cantando-lhes uma canção de embalar. Ana, ansiosa, sentia o coração bater-lhe fora do peito, o marido, o pai dos seus filhos, deixara-os para ir lutar contra os franceses. Ela sabia que as suas vidas estavam a mudar: a guerra estava a chegar e eles teriam que largar tudo e fugir.

Episódio 2

Enquanto isso, as tropas francesas movimentam-se em direção a Coimbra e as tropas inglesas preparam mais um movimento defensivo.

Durante esta invasão há dois grandes generais. De um lado, o Marechal André Massena, por parte dos franceses, e do outro o Comandante Arthur Wellesley, agora nomeado Lord Wellington, por parte dos ingleses, nossos aliados.

Com o conhecimento de que o Marechal Massena planeia chegar a Coimbra atravessando o Bussaco, Lord Wellington dirige-se para esta serra, a fim de criar uma barreira defensiva, que impedirá as tropas inimigas de prosseguirem o caminho com o sucesso esperado. No Bussaco, Lord Wellington decide pernoitar no Convento de Santa Cruz. Porém, é confrontado com um jovem Carmelita que não o recebe como o esperado. Após uma longa troca de ideias sobre as ações militares do Comandante em chefe das tropas inglesas, um Carmelita Ancião aparece e coloca fim à discussão, convidando Sir Wellington a entrar. 

Episódio 3

Não muito longe dali, ouvem-se crianças a cantar e a brincar na rua, que são interrompidas por um “Os franceses vêm aí, os franceses vêm aí”. As crianças fogem e de repente, uma nuvem de fumo paira no ar. Começa um dos primeiros confrontos no nosso território. Junto ao moinho de Sula, as tropas francesas tentam atravessar a serra, sendo travadas por parte do exército anglo-luso. Ao mesmo tempo, o dono do moinho, João Rana, tenta, a todo o custo, entrar no seu moinho. “O meu moinho, o meu rico moinho!” E lá ficou ele, sozinho. 

Espectáculo

Na madrugada do dia 27 de setembro dá-se a “Batalha do Bussaco”. Massena e Wellington discutem as últimas estratégias antes de iniciar a batalha. De um lado, podemos ver a resiliência e resistência de um povo que luta pela sua sobrevivência e de outro, a raiva dos homens em batalha. Ao centro, um homem que se vê dividido entre a liberdade da nação e a salvação do seu povo.

Episódio 4

No rescaldo da batalha, de volta ao Convento, há agora um grande alvoroço por todo o lado, ouvem-se tiros, gritos, homens a fugir, feridos... Soldados franceses tentam arrombar o Convento e roubar os mantimentos, mas Frei José de São Silvestre, sem medo, não arreda pé e luta por evitar a destruição do Convento.

Frei José dedica-se à escrita, relatando no seu diário tudo a que vai assistindo. A Capela das Almas, próxima às Portas de Sula do Bussaco, é transformada num hospital de sangue, onde feridos franceses, portugueses e ingleses são tratados de igual modo, como seres humanos. Frei José inspira assim a população a dar apoio e sustento à cura dos feridos. 

Episódio 5

Na Vacariça, o povo que deixou as suas casas e se esconde das tropas francesas, esforça-se por ajudar no que pode. Tentam, dentro dos possíveis, tratar dos primeiros feridos que começam a chegar, enquanto são obrigados a partilhar o que ainda lhes resta de sustento. Ana, ainda sem notícias do seu homem e sozinha com os dois filhos, desabafa sobre todo o sofrimento de um povo, toda a injustiça e toda a chacina desnecessária. Mas, sem qualquer premonição, algo inesperado acontece: “Vêm aí os franceses”, ouve-se a ecoar pelo campo, frase, infelizmente, já tão bem conhecida. A população foge, aos gritos: “Salvem as crianças”. Alguns corpos militares franceses chegam à Vacariça e na sua passagem cometem as maiores atrocidades. Os velhos e as crianças sofrem crimes horrendos, as Igrejas e locais de culto são completamente destruídos e saqueados e as mulheres são perseguidas, violadas, maltratadas e assassinadas de uma forma atroz. Ana está entre elas.

Episódio 6

Ainda durante a madrugada do dia 27, Massena, vendo que as suas tropas estão sem forças para continuarem a batalhar e percebendo que dificilmente conseguirão passar pela serra do Bussaco, resolve contornar a mesma, pela estrada que vai para o Porto, acabando por abandonar o campo de batalha sem que Lord Wellington se aperceba. Desta forma, Massena decide pernoitar na Mealhada, mais precisamente na casa da família Lebre. Montando o seu quartel general nesta casa, o Marechal e os seus generais decidem as próximas movimentações das suas tropas. Coimbra, é o ponto chave da discussão que se estabelece entre generais.

E como nem tudo é o que parece, resta referir que esta família abastada que agora recebe o marechal e os seus generais em sua casa, está do lado do seu povo e tudo faz para o proteger. Razão pela qual se encontram na obrigação de receberem em sua casa o inimigo que a nada, nem a ninguém poupa, a fim de restituírem ao seu povo e ao seu lar a paz tão desejada. 

Episódio 7

Tendo as tropas de Massena acampado pela Mealhada, aproveitam estes a noite, pois estando esfomeados e cansados, não lhes resta opção senão irem em busca de mantimentos e recursos à sua salvação.

Ana, tendo fugido do acampamento onde se encontrava, por o mesmo ter sido assaltado pelos franceses, encontra-se agora com os seus filhos, desalojada, com fome e com frio. Assim, abandonada pelas ruas da Mealhada, procura um local para ela e os seus filhos passarem a noite, acabando por decidir pernoitar junto da Capela de Sant’Ana, padroeira da Mealhada. Mas não é a única. Dois soldados franceses, que bebem para esquecer e afogar as mágoas, rondam a mesma capela, a fim de entrarem para saquearem os bens da capela e se aquecerem do frio. Eles, os soldados, não querem estar ali, numa batalha sangrenta, longe das suas famílias, a lutar numa guerra desnecessária e por uma causa que em nada lhes diz respeito. Mas procuram sobreviver e, por isso, tentam assaltar a Capela de Sant’Ana. 

Episódio 8

Numa pequena povoação próxima, Teresa, uma jovem que luta por ajudar os feridos da guerra, encontra um soldado francês ferido, de nome Jean Collet. A jovem vê-se num grande impasse. Tratar o inimigo? Terá ele que sofrer pela revolta alheia? Apesar do seu receio, Teresa recebe-o em sua casa e ensina-lhe a língua portuguesa. Avisa-o para que não fale em público, pois se o reconhecerem como francês, poderão tentar sacrificá-lo em nome da pátria.

Os dois apaixonam-se e depois de algum tempo, acabam por casar.

E surpresas houvesse, não termina a história deste povo, sem que os homens perdidos e feridos na batalha regressem a suas casas, às suas famílias. Certo é, que nem todos tiveram a mesma sorte, muitos foram os que ficaram para trás, outros tantos que seguiram com as tropas de Lord Wellington e tantos os que voltaram diferentes dos homens que foram.

Mas, e o homem de Ana? 

Deixando o nosso território, as tropas francesas chegam a Coimbra, pilhando tudo à sua passagem. Lord Wellington sem capacidades para proteger atempadamente esta cidade, decide seguir com as suas tropas para as Linhas defensivas de Torres Vedras, onde se deu o confronto final desta invasão. Por se encontrarem desgastados e fracos, com baixas significativas no número de soldados e generais e com a moral completamente destruída, as tropas francesas, sendo barradas nas Linhas de Torres, não conseguiram continuar o seu percurso até ao objetivo final: Lisboa. Assim, em março de 1811, deu-se, finalmente, a tão desejada vitória à nossa nação, com a retirada das tropas francesas do nosso país.

Foi, no entanto, esta terceira invasão, uma das maiores chacinas que o nosso povo sofreu. Passado tanto tempo, ainda hoje resta a dúvida, para quê tamanha atrocidade? O que restou de nós?





EPISÓDIOS

EPISÓDIO 1
TERRA QUEIMADA
EPISÓDIO 2
PERNOITA DE WELLINGTON
EPISÓDIO 3
MOLEIRO DE SULA
EPISÓDIO 4
MEMÓRIAS DE RETIRADA
EPISÓDIO 5
TERROR E MALVADEZ
EPISÓDIO 6
PERNOITA DE MASSENA
EPISÓDIO 7
ROUBO E DESTRUIÇÃO
EPISÓDIO 8
UM AMOR EM SILÊNCIO
ESPECTÁCULO
INVASÃO E RESISTÊNCIA